Spleen e charutos

março 20, 2008

Sobre palavras e pontes

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 5:00 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Publicado originalmente em 2006, durante o último governo João Alves Filho (tomara um anjo escute e diga amém!), o artigo reproduzido abaixo ambicionava forrar com algum lirismo a revolta dos setores progressistas da sociedade sergipana em relação ao batismo da ponte Aracaju/Barra dos Coqueiros – oficialmente, Construtor João Alves. Agora, embora não tenha sido concebido com essa finalidade, parece ter se transformado no testemunho involuntário de que as mudanças pelas quais ansiamos todos não poderão ser conquistadas apenas com palavras lançadas ao vento. No início era o verbo… No início!

***

Pensar na palavra como ponte, essa construção de simplicidade maravilhosa que retira o homem de sua margem e o leva a encontrar o outro, é como respirar a fumaça barulhenta que escapa dos automóveis e adivinhar que as nuvens, por ora, persistem. Palavra nua, palavra que transporta, que nos arranca de nossas certezas e nos leva a conhecer o ponto de vista alheio. Palavra que comunica, com vontade e verdade, como nos xingamentos e safadezas que ouvidos atentos conseguem acariciar no meio da feira.
Existem, contudo, os que não enxergam nas pontes o trânsito, os que ornamentam seus pilares, e sonham a ponte superlativa, luzes coloridas e arremedos de progresso. Estes só reconhecem na palavra um instrumento capaz de viabilizar o império de sua vontade. Suas palavras não alcançam nada, não constroem nada. As palavras destes não possuem pernas e morrem plantadas em si, curvadas sobre sua insignificância.
Palavra/ponte conduz. Palavra/estanque definha. Palavra/ponte é canção antiga que não se perde nas curvas do tempo e lembra amigo cantando embriagado, impedindo que este seja reduzido a memória. Palavra/ponte aproxima, convida. Palavra/ponte é abraço. Palavra/estanque é véu que encobre a verdade em discurso de campanha. Palavra/estanque é máscara de novidade a disfarçar o arcaico. Palavra/estanque fantasia, não revela, nem leva a canto algum.
Pensar na palavra como ponte é reconhecer a importância do diálogo e do respeito aos conceitos que encontram abrigo na forma impressa de siglas e fonemas. Pensar na palavra como ponte é coisa rara em plagas sergipanas, onde artigos são comprados com mesadas polpudas e as pontes, longe de constituir elo, ligam apenas o privilégio de poucos ao desespero de muitos. “Sons/palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém”.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: