Spleen e charutos

fevereiro 23, 2008

Cachorro atrás do rabo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:41 pm

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

O pé encosta no chão, carícia temerosa na dura realidade do dia, e a manhã começa a desfiar seu círculo agoniado de urgências. Um cachorro no encalço do próprio rabo, a fome dos piolhos mastigando a extremidade peluda da espinha. Casa, trabalho, boteco, casa… É como se a sede fosse uma faculdade do sol, e a algazarra dos meninos um acidente da esquina. Bom mesmo seria uma febre! O dia apressado lá fora – contas protestadas, cotoveladas no ônibus, impostos e filas cobrando o seu quinhão – e eu aqui, quarenta graus de abandono ruminando obscenidades no encardido do pijama.

É preciso um couro agreste pra suportar a ladainha enferrujada dos engarrafamentos. Por isso o rosário suado que recito no calor de minha preguiça. Uma Ave-Maria descabida dedicada ao esquecimento. O controle remoto pulando canais, dores nos olhos de ver tanta adolescência. Globo, Record, SBT… Eu rezando. Que essa fraqueza não me largue antes da novela das oito.

Foi Copérnico o primeiro a perceber. O planeta gira atrocidades no espaço. Numa dessas voltas, uma mola solta confunde os capítulos do tempo e joga em minha sala –correntes, sangue e tudo – o tombadilho imundo de um navio negreiro. Uma menina, treze anos roubados à infância, alugada pelo próprio pai. A pele escura, a penúria, a resignação ajoelhada diante da fatalidade, tudo lembrava um país distante, a África famélica ou o Haiti. O absurdo, no entanto, ocorreu bem aqui.

Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, senhor Deus! Se é loucura… Se é verdade tanto horror perante os céus?! A esquerda nos palácios, a tuberculose longe de casa, Fidel Castro cansado do cetro, essa ilusão de que a história caminha não pode andar de mãos dadas com a escravidão. A roda monótona do progresso, tecnologia e pão quente em nossa mesa, não pode bancar o animal estúpido, pulgas ancestrais lhe mordendo o juízo, e correr no rasto do pecado original que fundou nossa civilização.

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