Spleen e charutos

fevereiro 16, 2008

Bendito pranto

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:04 pm

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Foi ainda menino que peguei a manha. Era despedaçar um jarro no chão, o farelo do barro emporcalhando a brincadeira, e correr buscando o colo compadecido de Dona Eliene. O coração materno saberia reconhecer a justiça daquelas lágrimas. Aceitaria sem receio a argila molhada no rosto da criança, artesanato umedecido pela certeza do castigo. Bendito pranto. Libertas, minhas mãos desgovernadas tropeçavam em todos os obstáculos encontrados no caminho. Era quase uma carícia. Nossa Senhora decapitada, Preto Velho privado de cachimbo… A nervosa inquietação de minha primeira infância adivinhando o sincretismo comercial das olarias.

É de admirar que eu não tenha me dedicado à política. A sala ficava nua e eu sorvia o veneno da impunidade. Um biquinho contrito, o arrependimento ensaiado com duas palavras encharcadas de pesar, e estava tudo resolvido. A absolvição num afago, o vício evoluindo secretamente como um câncer. Era a biografia de um tirano que guiava meus passos de bruguelo no subúrbio de Aracaju. Parecia até que eu era educado pra comandar algum curral em Pirambu ou São Cristóvão.

O prefeito afastado Juarez Batista chorou muito. Entre uma gaguejada e outra, dilapidou uma cidade inteira. Depois correu pros braços da justiça, apostando que, apesar da venda sobre os olhos, a estátua cega adivinharia sua consternação. Mais do que peças de barro, o arrependido comparsa da família Moura confessou desviar mensalmente entre R$ 30 mil e R$ 50 mil, mas alegou roubar para os outros. Ladrão que rouba pra ladrão tem quantos anos de perdão?

Em ano de sucessão eleitoral, mais do que nunca, é bom termos em mente o emblemático caso Juarez Batista. Nos rincões do Estado, a práxis política se conjuga ao hálito desdentado da população, fabrica fendas em casas de taipa e mantém sob seu julgo uma população carente de tudo. Um feitor, chicote em punho, adestrando os filhotes famélicos do anacronismo. Uma alegoria do nosso Sergipe, bem de perto.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: