Spleen e charutos

fevereiro 2, 2008

Um velho chamado Chico

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 2:57 am

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Piolhos mordendo meu juízo, feridas e secreções. A coceira ardendo na pele feito cobrador na pegada de inquilino. Reclama meu sangue, o suco ralo que sustenta minhas pernas cansadas. Eu não arrefeço. Equilibrista acostumado à corda bamba, levanto todos os dias com a certeza macilenta da fraqueza. Esquálido, removo a sujeira acumulada sob as unhas, jogo um pedaço de pano sobre a evidência saliente dos ossos, e desfilo minha vergonha, a cabeça baixa por esse mundo afora. E pensar que já matei a sede de tanta gente…

Outro dia um coronel passou aqui em casa. Ressabiado em meio a tanta penúria, pediu licença pra sentar, uma caneca de água. Água não havia, e eu pensei que o moço se daria por vencido. Ele fez que não ouviu e se botou a passear pelo barraco. Falava o tempo todo, metia o nariz dentro de minhas panelas, e de vez em quando ensaiava um sorriso. Pelo esforço, parecia não saber tratar com pobre. Com ar grave, falava de minhas dificuldades, prometia empenho em minha salvação. Depois da porta batida, eu e a sangria, lesmas cheias de ventosas lambendo minha podridão.

Doutor João voltou com meio mundo de gente. Filmagens, fotografias, minhas chagas em rede nacional. E a pestilência correndo, apesar da consternação. Pensei que alguém me ofereceria um trapo qualquer pra cobrir a nojeira impregnada em meus cambitos, mas parece que minha debilidade fazia a alegria dessa gente. Era um gemido me escapar, o bafo nauseabundo agarrado ao desacerto da fala, e perceber o espasmo de um orgasmo contido no encardido das cuecas.

Tivesse força, mandava todo mundo embora. Uma enxurrada, vilas e vales inundados, povoados submersos e ribeirinhos desesperados por causa das pretensões eleitoreiras de um rei deposto, as mãos nervosas para tomar de volta o cetro. Não à custa de minha miséria! daqui a pouco a peste dorme e eu corro de novo a fartura de minha beleza ignorando a vontade dos homens, pelos caminhos que o mistério divino escreveu.

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