Spleen e charutos

janeiro 26, 2008

Jeff Buckley sem Hallelujah

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:46 pm

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Qualquer dia mergulho num rio pra nunca mais voltar. Jeff Buckley sem Hallelujah, ninguém de pé em nenhuma das margens aguardando a brincadeira acabar, boiarei até sua porta para lhe dar a palavra. Isso mesmo, minha tragédia pra você, que deveria submergir e conhecer o lodo acumulado no fundo antes de mim. Você que ficou gordo, pintou os cabelos de acaju e adotou o evangelho de Kardec numa ressaca de carnaval. Você que me dava tapinhas nas costas, recomendava putas e corria caminhos brancos esfregando o focinho nodoso na mesa da cozinha. Você, um velho apegado a ídolos moribundos, medo de crianças, receio de conspirações para tomar o seu quintal.

Você guarda um monte de defuntos no coração, fotografias doloridas e amareladas nas paredes. Não suporta me ver deitando tudo ao acaso, minha coleção de garrafas vazias atiradas no meio do mundo. De repente, o velho safado me vem com conselhos de comedimento, como se a minha riqueza, delícia de corpos exauridos, passos desequilibrados na incerteza de chegar, pudesse repousar no escuro avarento de um bolso encardido. Poupe você, que teme acordar e descobrir as paredes em que se apoiou durante tanto tempo derrubadas. Tenho minha juventude pra apostar.

Linhas retas, cores harmoniosas, um busto de Apolo no canto da sala. Sua afeição à estabilidade levada às últimas conseqüências. Eu, por minha vez, conheço o erro desde o choro primordial. Fruto de um preservativo arrebentado, uma ejaculação precoce, coito interrompido já na terceira bombada, falava o menos possível. Inquietava-me a possibilidade de reforçar com o esforço da fala a inconveniência de minha presença. Só depois me decidi a esculhambar.

Você tem sorte, vou embora antes de você definhar. Ainda assim, é melhor colocar sua barba de molho, examinar os aposentos de casa antes de deitar. Tem uma gurizada esperta abrinda uma avenida. Um grande cortejo acompanhando seu último passeio, um carro fúnebre a desfilar.

Anúncios

1 Comentário »

  1. Desculpe, mas eu vou precisar fazer um comentário nada a ver com nada:

    Será que algum dia você vai escrever um texto deixando as putas em paz? “Estilo, estilo meu”. hahahaha.

    Beijo, Calango.

    Comentário por Outra Carol — janeiro 26, 2008 @ 10:58 pm


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: