Spleen e charutos

janeiro 21, 2008

Sob a sombra de uma bandeira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:43 pm

Rian Santos

Quantos constrangimentos um pedaço de pano pode causar! Lá no alto, colorida ou branca, idéia apenas, a bandeira aceita as carícias do vento. Convulsões e frouxidão para desespero da ralé pudica aqui da terra. Embaixo, a sombra e os atropelos da gente ordinária dos subúrbios, filas e ônibus desmantelados pra defender o do pão. Dois espantalhos da vontade, o farrapo lasso pendurado na haste e o funcionário público que tropeça num mendigo, o rabo exposto para os passantes sobre a laje fria da catedral. Pragueja, cheio de pressa e de gravatas, o burocrata empacotado. Não imagina que, sob o manto solene do tecido desfraldado no espaço, encontra-se tão desprevenido quanto o estorvo atravessado em seu caminho.

O ideal tornado entulho. Lindo pendão de esperança, a crescente preocupação com os valores da música sergipana vem abrigando sob a asa, sem qualquer cerimônia, os filhotes esfomeados da mediocridade. Além da TV Sergipe, que vez por outra acoita em seus noticiários umas bandinhas de playboy mimado, agora é o Governo do Estado quem comete o equívoco.

Ficamos todos satisfeitos com a programação e a estrutura do Verão Sergipe 2008. Quem não ficará agradecido pela oportunidade de ver Mariana Aydar berrando os versos de Caetano Veloso no meio da praia? Beleza pura! O bicho pega quando a gente se volta para os nomes locais eleitos pelos organizadores do evento para representar Sergipe na praia da Caueira. Entre tantos nomes afeitos à diluição e ao pastiche, salvam-se somente Patrícia Polayne e a NaurÊa como legítimos defensores de um trabalho autoral, comprometido com a efetiva exaltação de nossa identidade.

“Dentro daquele turbante dos filhos de Gandi/ Tudo é chic demais, tudo é muito elegante…”. As instituições responsáveis pela difusão e preservação da cultura em Sergipe podem até não reconhecer, mas são nomes como Alex Santa’nna, Ode ao Canalha, Deilson Pessoa, The Baggios, entre inúmeros outros que, a exemplo do que o mano Caetano fez com sua Triste Bahia, poderão se voltar para o nosso umbigo e transformar em verso a riqueza de nossa gente.

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