Spleen e charutos

janeiro 4, 2008

Aracaju andando (You don’t know me)

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:27 pm

Aracaju andando (You don’t know me)

Rian Santos
riancalangodoido@yahoo.com.br

Por alguma razão fugitiva, resolvi inaugurar meu novo cafofo com o maior de todos os Caetanos. Foi como uma revelação. Ouvindo Transa (1972) no centro da cidade, ao alcance das badaladas pontuais da catedral, maravilha de pedra que arranca nossos olhos e os devolve para o invisível pendurado no alto impossível do espaço, pude vivenciar a beleza e a confusão perseguidas na lama equivocada de tantas calçadas. Estranho, mas o aborrecimento de alguns semáforos – latas nervosas, rugidos mecânicos e monóxido de carbono em profusão – conjugados aos versos ingleses do baiano me emprestaram a ilusão de um aventureiro metropolitano. “You don’t know me…”

Da porta pra fora é Nova Iorque, Hong Kong, Amsterdam. Passos apressados e fisionomias desconhecidas. Feiúra e sujeira nas fachadas comerciais. Palácios rangem abandonados, nossa história convertida em ruínas. Heróis emperdernidos, poses pomposas e a indiferença pestilenta dos pássaros. Bêbados, ratos e travestis. Nesse emaranhado de encontros, caminho acidentado de opostos, bordado de mucama amancebada com feitor, reconheci a Aracaju que imaginei andando. Ela não é mais bonita do que os números acumulados por governantes vaidosos, mas respira ofegante.

Uma velha louca. Nos passos arriscados por meu sonho ordinário de cidade seu nome é
Rubi, a dona do lugar. Se mistura com a gente vulgar nos pontos de ônibus e incomoda um pouco com a fantasia de relatos fastidiosos, intermináveis. Figuras importantes, reuniões misteriosas e orgias palatinas. Existe também o lodo e o fedor. Apesar disso, não desiste de entabular conversa, obrigando vivos e mortos a lhe virar a cara. Nariz torcido e uma espécie de náusea estampada no rosto. Então Rubi caminha, passeia sua augusta obesidade pra lá e pra cá. Berrando desamparada, só ela e as pedras da rua, a rabugenta Rubi, que tanto viu e tanto sabe, desgostosa do reino e de seus súditos, vassalos desatenciosos, ameaça abandonar tudo, dar cabo a uma vida inteira de abnegação e sacrifícios. E as personalidades, as reuniões, o festim desenfreado? Contrariada, Rubi não se concentra nisso. Finalmente percebe as moscas ao redor de si.

No centro de Aracaju, duas cidades amalgamadas. A primeira, cimento e concreto. Na segunda, lunáticos governam uma metrópole demente construída em mim.

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