Spleen e charutos

dezembro 1, 2007

Eu, conspurcador

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 11:57 am

Rian Santos

Vou ali e volto já. Nas costas uma mochila, um bocado de motivos pra polícia me parar. Preto e pobre, confessaria antes do primeiro tapa. Fui eu quem manchou as paredes daquela sala; quem maculou, Onan extraviado das sagradas escrituras, a brancura santa do papel. Sou dependente. Uma gastura de superfície limpa, irritação que morde a pele e me empurra o nariz no buraco imundo do fundo, enche meus pulmões de sujeira. Quando me dou conta, já cuspi a porcaria no mundo, retribuindo com os dejetos absorvidos na fenda à excitação provocada pela alergia. Minha mãe deve se perguntar onde errou para eu ter chegado a esse ponto.

Conspurcadores em início de carreira alcançam satisfação de maneira muito simplória. Uns hieróglifos no ponto de ônibus, duas mensagens cifradas numa altura de concreto, e tudo certo. Minha compulsão é diferente, não é qualquer tijolo que me agrada. O ideal é um pedaço de muro bem escondido. É adivinhar uma fresta na couraça repugnante do usual, um fiapo de luz iluminando os pecados guardados no coração, crime enterrado nas entranhas, sete palmos de terra sobre o cadáver perfurado por tantas paixões, e ter o sangue aquecido numa euforia de carnaval.

É melhor do que cachaça. Um traço largado ao acaso, no meio da rua, e é como se eu antevisse a menina casta, o dia inteiro ocupada com bordados, segredos no escuro da bolsa, desejos sufocados no meio das pernas, acalentando a palavra maldita, uma balada silenciosa para o amante atrasado, filho da puta ignorante dos abismos onde suicidam delícias, virtude imprestável num corpo de uma mulher. Quando acabar, o menino sou eu.

Volto já. Essa peleja madrasta, retirante no encalço de um nervo bandido, bota a gente cansado como se não tivesse casa. Nessas férias de mim mesmo, o rancor afogado numa garrafa de uísque, quem sabe não me perco dessa sina e descubro um verbo amigueiro, que me coloque em paz com os homens como um narcótico que embaçasse a epiderme cotidiana, devolvendo a comunhão infantil de minha verdade com a realidade aparente. Ah! Quanta falta me fazem os caminhos que não vi…

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