Spleen e charutos

novembro 27, 2007

O dedo do velho Eguchi

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:19 pm

Rian Santos

A mente apavora o que ainda não é mesmo velho, pelo menos foi o que cantou Caetano. Se a sua verdade de poeta deslumbrado com campos e espaços possuir algum respaldo no mundo de concreto sobre o qual são construídas as cidades, temo que o apego orgulhoso que um deputado ostentou recentemente pela virilidade senil e autoritária do seu dedo indicador não seja fato raro. É provável que, no escuro dos gabinetes trancados à chave, muitos de seus colegas de oposição acariciem, na lembrança, o gozo truculento do poder que lhes foi tomado, do mesmo modo encarniçado com que o velho Eguchi apalpa o corpo nu e entorpecido das moças que descansam sua inocência na Casa das Belas Adormecidas.

Quando Kawbata escreveu o romance em que o velho Eguchi, embalado pelo perfume de adolescentes virgens, recorre à memória para evitar o confronto com sua própria ruína, certamente não imaginou que a decrepitude de seu personagem atravessaria terras e mares, indiferente a fronteiras e culturas, para construir um feudo anacrônico sobre a falange encarquilhada de um parlamentar sergipano. O hábito da prepotência, profundamente enraizado nos músculos após o exercício de sucessivos mandatos, encontrou aqui, no entanto, o terreno árido tão propício para o afloramento das rosas roxas da brutalidade que, num passado recente, eram a única manifestação de reconhecimento dos movimentos populares demonstrada pelo Governo.

Os democratas podem e devem exercer o papel delegado por seus eleitores. A nota dissonante é fundamental para a vitalidade da democracia. Seria ingênuo acreditar, contudo, que a constante criação de factóides poderia enterrar o passado que eles se esforçam para ignorar com a sigla que renegaram. Não é atribuição de nenhum deputado determinar a direção do Sintese. O sindicato honra a sua história de lutas e já demonstrou que, a despeito de afinidades ideológicas – mais tênues, aliás, do que poderia sugerir o rubor de suas camisetas –, não sente nem sombra de desconforto com a nova configuração política do Estado.

Do alto de meus vinte e poucos anos, fico impossibilitado de afirmar que sou capaz de compreender o real significado de uma perda. O futuro de pernas abertas, como as mulheres da casa da luz vermelha, aquele puteiro barato que ninguém conhece, perto do mercado, me impede de encarar com seriedade o ocaso da impotência. Se não escancaro, portanto, minha crueldade uma vez e dou um destino claríssimo ao dedo em riste dos Eguchis bronzeados da Assembléia Legislativa, é somente por receio de abandonar definitivamente o resquício de elegância que ainda carrego comigo.

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