Spleen e charutos

novembro 24, 2007

Um pano encharcado de sono sobre os olhos

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 3:05 pm

Rian Santos

Uma insônia de puta maltratada. Três noites com as unhas compridas da claridade me aranhando a superfície do sono. Os vestidos de domingo rasgados na altura do peito. As coxas do hábito desprotegidas dos panos da virtude. Não fossem os passos agitados no apartamento de cima, a ponta do salto martelando o pensamento, humilhando o meu cansaço, seria fácil expulsar os fantasmas sonolentos acampados na inútil escuridão do quarto. Correntes arrastadas até o limite do desespero. Logo eu, a quem tanto agradava acompanhar a vigília mecânica do relógio madrugada adentro…

Catando pedra enquanto os outros dormiam, eu enchia a bolsa de frieza e litania. Uma ladainha ordinária, magrela como o cachorro sem dono que me lambia a face, apagando com saliva o roteiro dos meus erros. Porteiro de desvarios, eu examinava, as mãos calejadas de punheta, as sombras de moças capturadas pela imaginação. Ressuscitadas pelo exercício da vontade, mantidas no cativeiro catinguento de minha agonia, todas se dobravam ao desejo imperativo de minha determinação. A pretinha se espreguiçava, lânguida; a branquinha adormecia no sofá; a morena descuidava, a porta entreaberta, a calcinha arriada no chão… As noites claras de um romancista russo não guardariam tanta poesia.

Não era samba, nem amor, mas durava até tarde. No outro dia, meus olhos fundos, fatigados pela orgia. Convertido num farrapo insone, eu me arrastava de um canto pra outro, acompanhando o baile da esfera de ouro, passos vagarosos no céu, doidinho pra ela levar aquele calor todo para outra parte do mundo. Meu negócio era com a lua. Uivos lancinantes, o conforto irresponsável do escuro, um gole de vinho pra balançar as nojeiras acomodadas no coração.

Pois é, antes eu sonhava. Agora são as unhas compridas da claridade, meninas dançando alegrias no vizinho e as correntes de fantasmas escravizados amarrando a minha atenção. O vigia apita cuidados na rua e eu afundo a cabeça no travesseiro aborrecido da comiseração.

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