Spleen e charutos

novembro 16, 2007

Ao redor de meu umbigo

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 9:30 pm

Rian Santos

Só interessa o meu umbigo. O mundo inteiro ao redor de mim, feito um carrossel desgovernado, girando suas doenças para distração do rei. Guizos, malabares, fantasias coloridas. O tédio no fundo do bolso, avarento de fortunas saqueadas na ponta da espada. Qualquer dia largo esses brinquedos, jogo fora minha coroa de cartolina, e vou ali na esquina, descobrir os caminhos ocultos pela linha pontilhada, explorar o desenho das fronteiras pintadas na superfície enfadonha do papel. Andando, quem sabe não encontro, tropeço e providência, o reino abandonado pelos governantes enfurnadas nos palácios, legado de miséria e fome largado de barriga pra cima no meio da rua? Caminhar é preciso.

Bocejos na frente da tv. A novela de São Cristóvão parece não ter fim. Cada dia um capítulo novo, mais modorrento que o anterior. A gente acompanha o enredo como se ele tratasse de uma guerra distante, campos de petróleo, religiões confusas, incompreensíveis, bombas mutilando crianças na porta da escola. Tivéssemos pernas, conversaríamos com as pedras da cidade histórica. Duas palavras entre os gemidos pisados pelos passantes, e apareceria a loucura, o dia inteiro de tocaia no reboco dos casarões.

Prova disso é o documentário Baggio Sedado, com lançamento previsto para esta terça-feira, durante mais uma edição do Prata da Casa. Ali, tudo é fuga, desespero criativo e aflição. Tanta cultura nas fachadas dos sobrados e o povo de cara pra cima, esperando a poesia descer a ladeira como quem aguarda um acidente divino, os joelhos santos machucados de encontro ao chão. São Cristóvão podia, mas não é. Sucumbiu aos homens feito a puta sonhadora, um bordado de ilusões junto aos panos de bunda, o rosto murcho e o bolso vazio no final da madrugada. Experimente empunhar uma guitarra, se afirmar artista num lugar como aquele. A quarta cidade mais antiga do Brasil, patrimônio histórico nacional, vive às moscas, sem segurança, saúde ou educação. Vá reclamar tambor, em meio a tanta carência!

O meu umbigo é aqui! Não me interessam guerras imperialistas, cruzadas religiosas, disputas comerciais. Foi nesse nada feito, nessa ausência de tudo que cortaram o meu cordão umbilical. Insetos dançando sua penúria em torno da cicatriz rasgada bem no centro de meu ventre.

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1 Comentário »

  1. Ué, existe algo para além do MEU umbigo? o.O

    Comentário por outra carol — novembro 21, 2007 @ 5:19 am


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