Spleen e charutos

novembro 14, 2007

Lulu Gostosa

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:49 pm

Rian Santos

Pertenço à estirpe de pessoas que fica melhor por escrito. Um monte de noites claras e vista gasta nas páginas emboloradas dos livros me tornaram assim, arredio ao bicho gente. Embora o humanismo construído nos botecos, nos andrajos excomungados do passo em falso, tenham me tornado um pouco menos indisposto ao outro, conservo muito de minha má vontade com a humanidade. Por isso, Lulu Gostosa, e também porque a minha namorada é braba e mais forte do que eu, não vou poder lhe conhecer.
Não creditava muito valor aos artigos que por vezes escrevo para o Jornal do Dia, apesar dos e-mails de alguns leitores abnegados massagearem meu ego esporadicamente. Nenhum deles, contudo, superou o de Lulu Gostosa. Depois de alguns poucos cumprimentos e considerações ao meu sentido estético, a leitora despudorada lançou-me em linhas rápidas, digitadas com a linguagem sofrida do MSN (seria você, Lulu, uma adolescente?), a proposta indecorosa, que vou omitir para tornar ainda mais tentadora.
Lembrei-me das noites que desperdicei no MirK, ferramenta de comunicação virtual muito popular em minha adolescência. Embora fosse alardeada como um instrumento capaz de promover amizades por meio das afinidades casualmente existentes, o pessoal de minha turma estava a fim mesmo era de se dar bem, conhecer as meninas num sentido mais profundo e imediato. Empírico, como diria um amigo. Afinal, não há alma que se agüente sobre as pernas consumindo apenas cerveja e poesia.
E era um tal de pavonear-se em nicks chamativos (um pouco menos apelativos que o de minha indiscreta leitora), citar canção dos Beatles, chorar dor de corno de namorada inexistente que, por fim, alguma alma langorosa compadecia-se do vampiro esfomeado e oferecia seu pescocinho juvenil para uma mordida descompromissada. Como são poderosas as reticências!
Lulu Gostosa, se por acaso você pousar seus olhos sobre essas palavras rasteiras, tenha certeza de que não perdeu muita coisa. Sou um velho de pouca idade. Mal humorado, préconceituoso, machista, e barrigudo. Se a auto-flagelação desse parágrafo lhe enganar um espírito cristão, aguce seus sentidos e perceba a evidência inequívoca que talvez tenha lhe escapado no restante do texto: Fico melhor por escrito.

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1 Comentário »

  1. E eu, eu só fico bem por escrito.

    Comentário por outra carol — novembro 14, 2007 @ 9:50 pm


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