Spleen e charutos

novembro 10, 2007

Caninos de vampiro banguela

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:34 pm

Rian Santos

Nos janeiros de minhas primeiras espinhas, caninos de vampiro faminto mastigavam meu sono todas as noites, achando graça da agonia. Hoje, erodidos por três cômodos de alegria doméstica, quase nem assustam a pretinha impaciente, o pesinho mimoso maltratando o piso e os nervos do cronista, indiferente ao vigia que a persegue na fila do pão. Também vou fingir esquecimento, morena. Faz de conta, não será você a lamber, na noite escura do pensamento, os calos rasgados no desespero de meus quinze anos; a cobrir as vergonhas com minhas pálpebras, o salto fino me pisando os fantasmas e as safadezas abrigadas na imaginação. Fosse eu versado em vinhos e lingeries, dono de sussurros obscenos, lânguidos e espanhóis sussurros; libertasse o arrepio contido nos modos, cachorro doido pra correr sua espinha inteira, uivos e tabefes, e lhe faria esquecer o assento etéreo, o trono malicioso de sua pele escura.

Pesadelos calvos. Não demoram o reumatismo, as manias idosas. A vista cansada, tateante, incapaz de pular do livro e correr a rua alcançando o bronzeado daquelas pernas coloridas, juventude de sol e de assovios absorvidos a caminho da feira. A vontade manca. Os dentes descansando no copo ao lado da cama. Já pensou, sonhar orgias palacianas, bacantes dançando cirandas em torno do leito lascivo da ansiedade, e molhar o pijama de urina!

Ou então a corrupção. Quanto, por um tornozelo descoberto, um palmo recatado de carne, os babados impolutos e colegiais de uma calcinha de algodão? O perigo dos diários, registros criminosos de Humbert Humbert, os membros mutilados afagando as grades perfumadas de sua prisão. “A ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA”.

Os caninos corroídos como os olhos de um velho safado. Após a romaria de desejos puídos, apetite que despenca do penhasco e encontra a dura realidade do chão, a insensata peregrinação dos sentidos perdidos. Uma punheta com as janelas abertas. Nabokov, Bukowisk, quanta erudição emprestam à senilidade degenerada dos perdidos? Sei não… Guardo comigo umas lembranças.

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