Spleen e charutos

novembro 3, 2007

Sem eira nem beira

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:57 pm

Rian Santos

Pra escrever não é preciso tinta nem papel, só saudade. Bulindo os guardados de meus tropeços de cronista, encontrei o registro afetivo, punheta e poesia, dos primeiros passos aventurados fora de casa. Confiando na indulgência alheia, os divido agora com o leitor.

*****

Se é o vento que dá forma às nuvens, talvez não seja absurdo ser solto assim. Quem abandona as asas no espaço não pode almejar o equilíbrio. É que às vezes dá uma vontade danada de raiz, porto, bom dia no café da manhã. E isso não é melancolia, é cansaço de passo em falso, gastura de muito caminho comido nas costas, fadiga de tropeiro que não tem onde encostar. Andar é preciso, eu sei. Por isso não me furto a cabaré, boteco, igreja ou procissão (Mentira! Igreja é demais pra mim). Mas de muito vadiar o pé esquece o rumo de casa e vai sempre haver uma esquina que não merece ser dobrada, mesmo para quem não possui eira nem beira, como eu.

Achava bonito, ser largado assim. Via a inveja nos olhos dos amigos casados, pais cheios de responsabilidades, e me sentia um pouco beat. Lembro que era um ideal de vida, essa insegurança toda. Um subemprego pra garantir as drogas, os livros, e muita saúde pra estragar. Mas aí veio o amor, insegurança maior que o homem pode suportar, e eu desisti. Transformou-se em coisa pouca aquele sonho libertino de vagabundagem.

Criança, escutava os versos de Chico cofiando a barba hirsuta que nunca teria, antevendo o heroísmo doído de uma vida inteira dedicada a farelos e sombras. Eu queria ser poeta, cigano, andarilho. Me faria farrapo procurando fiapos de transcendência nos copos de cerveja, abandonaria a fatia mais doce da vida na mesa dos homens de vida vazia. A consagração de um projeto fudido entra batatas fritas e caldinhos de feijão.

O amor veio, foi embora e me deixou vagabundo, sem eira, sem beira, estrangeiro como um judeu. Trabalho, cinema, literatura, boteco, cabaré, matinho e, se bobear, até procissão. Tenho tudo o que queria, e ainda me sinto pequeno. É que de tanto errar a gente deixa muito pelos cantos e alguns pedaços nunca mais são encontrados entre os vestígios da última festa, entre os destroços da última queda. Mas isso não é melancolia, é só cansaço de muito andar. Vou me esconder um tempo na toca e esperar a saudade do mundo me chamar.

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2 Comentários »

  1. Balzac quando foi preso por escrever pornografias, usava o sangue como tinta. Sua compulsão era tamanha que ele não conseguiria viver sem escrever, da mesma forma que não poderia respirar. Esta porra está impregnada nas víceras. O último parágrafo deste texto está parecendo com as coisas de Zé Limeira. Tá bonito.

    Neto

    Comentário por Neto — novembro 4, 2007 @ 2:14 am

  2. Esse eu já conhecia. E acho que já te disse que é um dos meu preferidos. Sempre que leio isso me bate, sim, uma melancolia. E mais: dá uma vontade louca de trocar essa existência sem eira nem beira por um ostracismo onde nem a saudade do mundo consiga me chamar. Ainda bem, vontade passageira. Minha ânsia por vida vai além!!

    Comentário por outra carol — novembro 8, 2007 @ 12:57 am


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