Spleen e charutos

outubro 31, 2007

Muçulmano em Nova Iorque

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 10:58 pm

Rian Santos

Vi ontem um rato. Corria pela sarjeta, assustado e imundo. Nos pêlos viscosos, mais do que sujeira, a repugnância dos outros. Os ratos não se movem, esgueiram-se. Ratos não pertencem nunca a um lugar, são sempre intrusos, inconvenientes, alimentam-se de lixo. Vi e lembrei. Também eu, estrangeiro como uma peste roedora, causo essa repulsa. Espremido entre a programação de cinema deste diário e o didatismo rigoroso de Luiz Antônio Barreto, farejo as feridas do mundo, roço a língua no cancro das vaidades, me alimento com toda a sorte de podridão. Muçulmano em Nova Iorque, negro fugido, bêbado que impede a calçada, identifico em todos os andrajos, nos vícios, em todas as nojeiras meu refúgio inaudito.

A escória é o meu buraco. Os restos da festa, tanta alegria derramada no salão… A garrafa vazia, atiro no passeio, acordando as pedras frias da madrugada. Me pedem lirismo, mas tenho apenas uns pedaços dormidos de pão. Ah, esquinas enlameadas de meus quase trinta anos! Em seu encalço, também chamado tropeço, encontrei o chão. Teve aquele dia, no fundo da sala, durante a aula de matemática. Eu folheava, vacilante, as páginas de um autor morto, cuidadoso como quem pedia licença para sentar à mesa esconjurada de um poeta tuberculoso. A cada página virada aumentava a distância, a fenda, o fosso, cavava fundo o segredo, o atributo misterioso que tingiria de vermelho a minha tosse enamorada de sangue, catarro e cigarro, um palhaço ansioso pelos aplausos da multidão.

Era, então, somente um estranho. Minha Excalibur entediava-se, enterrada na pedra. Eu não havia conquistado ainda a distinção dos vagabundos. Por isso lia, lia muito, largado, suicidando os apelos angustiados de qualquer adolescência. Aquele fudido de cabeça baixa, algemas apertadas no noticiário da televisão, tornava-se eu. O sertanejo estropiado, a sina severina carregada entre os molambos na cacunda, era agora eu. Era minha a burguesia entediada de Clarice Lispector e a embriaguez dos tramps de Georges Arnaud.

Os pés rachados de vadiagem, o lodo sob as unhas do menino que cheira cola no último assento do busão adormecem quanto cansaço no rosto murcho das manhãs insones? Quanta esfregação é necessária para resgatar o salário do medo, o tributo cabido a uma vida inteira dedicada ao encardida do cotidiano? Sei não. Sábios são os ratos. Sustentam-se com os dejetos da gente vulgar e se contentam com o espetáculo ordinário do mundo.

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: