Spleen e charutos

outubro 27, 2007

Eu e minha cueca furada

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:32 pm

Rian Santos

Como um São Francisco a quem agradasse atirar pedras nos pássaros, trago meus bolsos sempre vazios, livres de peso e de aborrecimentos. Sem teto, sem casa, quase nada o que contar. Do inventário grosseiro enterrado fundo no oco do peito, ligeira enumeração do pão e do asfalto comidos em vinte e tantos anos de mangue, pouco me restou. Trinta moedas de cobre, dois dedos de rancor e o grudento indesejado de um chiclete na sola do sapato. Todo o resto deitado fora, feito a vida de um coitado condenado à cicuta, obrigado a carregar nas costa o seu palácio de aparências como um Prometeu acorrentado à rocha estúpida da vaidade.

Comigo não. Rimos os dois, eu e minha cueca furada, de quem se ocupa com paredes e amontoa tijolos até impedir o sol. Encardidos de uso, safadeza e carícias, guardamos nossa fortuna no puído da experiência. O amarrotado das paixões, a nódoa extasiada do gozo são para mim como as latinhas de cerveja que o mendigo cata no final da festa. Do saco imundo retiro duas – os piolhos de minha infância, os peitinhos lambidos pelo buraco da fechadura – e as jogo amassadas no jornal. O testemunho de um degenerado conspurcando o café da manhã do leitor.

Se eles têm três carros, eu posso voar. O que Arnaldo Baptista não cantou foi a alegria do desnudamento, a pulsão de olhar se transformando melifluamente na pulsão de mostrar. E eu joguei tanto pano pelas avenidas limpas de Aracaju, tecidos indianos e incensos de alfazema, o evangelho de Kardec e o alcorão, que hoje me encontro só, esculhambando as gravatas do governador com a minha cueca furada.

As meninas mais castas podem até ficar constrangidas, seduzidas e incomodadas com o volume ostensivo mal disfarçado pela minha cueca furada. Mas essa juventude latejante, desesperada para explodir em alguma cova, em algum canto, sou eu mesmo. Tão insignificante que caibo inteiro, ressaca e sono, em menos de três mil caracteres. Um São Francisco degenerado que atira pedras nos pássaros e abandona negligentemente os panos de bunda pelo caminho.

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2 Comentários »

  1. Acompanha vc no jornal o dia, te achei no orkut e depois aqui excelente a sua escrita, bjão!!!!!!!!!!!

    Comentário por Dani — outubro 31, 2007 @ 10:48 pm

  2. Ei, vc percebeu que eu deixei um comentário sobre este texto num texto logo abaixo. Quando acabar o maluco sou eu. Toca Raul, toca.

    Neto

    Comentário por Neto — novembro 4, 2007 @ 2:09 am


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