Spleen e charutos

outubro 23, 2007

As ranhuras do vinil

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 4:15 pm

Rian Santos

A mão enfurecida de um tornado não me causaria, então, maior espanto…

Era sempre aos domingos, quando meu pai, o coração e o corpo gastos de vadiar pelos cabarés, descansava a brutalidade ansiosa de tanta vontade errante afundando nas picuinhas domésticas. Pé de moleque, beiju molhado, pamonha e tapioca em cima da mesa. João girando na vitrola, sem parar. Seu Luiz limpava os discos, num ritual mundano que me enchia de admiração e, pra desgosto de dona Eliene, desviava minha devoção para as coisas deste mundo. Assombravam-me as entidades de copo na mão, cigarro no bico e violão embaixo do braço nas capas dos LP’s, mas isso não era tudo. O mais estranho era como a montanha de nervos daquele gigante encontrava refúgio nas ranhuras invisíveis da superfície negra que, atenta às carícias do diamante na ponta da agulha, imitava uma cadela no cio e lançava uivos lancinantes no espaço.

O monstro fatigado que me roubava o chão por força de um capricho imperioso do braço alisava a bolacha com uma flanela, ruminando os vestígios de aventura esquecidos entre os dentes, como se as lambidas apaixonadas do pano apagassem, primeiro, a matéria polida e delicada, adormecida em seus dedos. Depois sumiam os quadros na parede, as paredes, o telhado, escurecia a rua, fantasmas se faziam dos homens, tudo virava vulto. Reduzido a sombra de menino, num vislumbre, eu percebia o último suspiro dos fiapos de criatura humana que se desintegravam junto ao aparelho de som.

Meu pai sumia, magicamente tragado pelos sulcos melódicos do impalpável. No meio da confusão intangível, entre espectros de vasos e flores, calçados, móveis e papéis, reconstruía – quem sabe? – a rotina dos dias, agora libertada do peso inerente às pedras. Erguia muros no nada. Numa neblina de existência sonhada, fugidia, preparava um café forte após o banho e se aborrecia com jornais do tempo do império. Da porta pra fora, o horizonte nublado perdia o seu apelo. Além dessa fantasia de acordes, tudo era cinza, ocre, um caminho usado, trilhado e sabido. Nestes domingos de imaginação, o velho fechava os olhos e acalentava a ilusão de pertencer a algum lugar.

Foi tão forte a impressão que ainda hoje, ao ouvir música, temo que o universo sensível possa repentinamente evaporar.

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2 Comentários »

  1. Desde sempre errante.. e ainda quer pôr a culpa nos LPs do papai.

    Comentário por outra carol — outubro 24, 2007 @ 10:19 am

  2. É por estas e outras que vou esgotando (jogando no esgoto mesmo) minhas cuecas, ou são apenas as vivências que elas carregam nas tripas se as tivessem, já não sei mais, enquanto aguardo impar-ciente os deslocamentos transloucados que a vida dá. Uma hora prá cá, outra prá lá e a gente fodido (e fodendo) no meio desta bagaça.

    Que se perca o sentido. Já cansei de procurar e entendi que ele não vem. Não espero mais Godot.

    Comentário por Neto — outubro 30, 2007 @ 3:53 am


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