Spleen e charutos

outubro 20, 2007

Em berço esplêndido, eternamente

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:14 pm

Rian Santos

Um pano encharcado de sono sobre os olhos e todo o rangido, o lamento e a doença arrefecem, umedecidos pela disposição sonolenta de esquecer. A senhora cansada, branco nos cabelos, outonos no gesto, reúne os farelos de força subtraídos aos dentes esfomeados das intempéries e resiste aos solavancos nervosos do busão. Em pé ao meu lado, mastigada pela erosão intermitente de curvas e lembranças, a velha se dilui inteira num suspiro de abnegação. Sentado no lugar que seria seu por direito, adormeço.

O incauto, o ingênuo e o otimista observam a perturbação citadina e a tomam como manifestação espontânea da vontade humana. Medem a altura suicida dos edifícios com formigamentos, ansiosos por ralar os joelhos no chão. Eu, sonâmbulo inconveniente, encastelado no alto de minha verdade de notívago desacordado, vislumbro além das passeatas e das tintas vermelhas das liquidações. Mesmo ante a evidência tangível dos engarrafamentos e procissões, percebo através das pálpebras pesadas o berço esplêndido onde dormimos todos, profundamente.

Estivéssemos mesmo atentos, cientes de nossos desejos, e as ruas não estariam sujas, o dia inteiro pisadas pela nossa falta de educação. Os jornais não mentiriam tanto e os partidos políticos não negociariam suas conveniências tão descaradamente. Estivéssemos despertos, e o Palácio Olímpio Campos não teria sofrido o atentado de sucessivas restaurações desastrosas, autorizadas por desastrosas administrações. Agora, num soluço insone de lucidez, o Governo do Estado gasta cerca de R$ 1,3 milhão para devolver ao prédio suas feições originais, demonstrando de maneira inconteste que encara a preservação da memória como política pública. Mas quem liga pra isso?

A velha se entorta pra um lado, pra outro, enxuga a testa banhada de luta e me dirige um olhar mendigo, doidinha para guardar no bolso a minha piedade e consideração. Eternamente deitado, confortavelmente instalado no lugar que seria seu por direito, adormeço.

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