Spleen e charutos

outubro 16, 2007

Vadio e pedinte

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 1:02 pm

Rian Santos

Não sei bem em que esquina dos caminhos cibernéticos meus amigos se perderam, mas sinto falta dos acenos e quando verifico minha correspondência eletrônica, emporcalhada de sacanagem, spam, releases e coisas do gênero, pergunto aos botões que minhas camisas de algodão não possuem: “Tem alguém vivo aí?”.
Sou vadio e pedinte. Mendigo verbo como quem junta moedas de dez centavos nos bolsos cheios dos andrajos. Acolho as palavras, alcovito as frases, greto os fonemas com a inocência de um cafetão que abriga uma virgem no puteiro e, perdulário, esbanjo vocábulos em orgias de nomes chulos e palavrões. Depois me encontro sozinho, ressacado, ansioso por uma janela qualquer que me inspire uma frase de alegria.
Que fiquem os néscios e mesquinhos a especular a santidade dos apóstolos de Cristo. Pra mim é sagrada a palavra latejante, sem endereço, perdida na corrupção dos botecos e das vielas. “No princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus e o Verbo estava com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele nada do que foi feito se fez …”. O diabo é que não existe palavra que me baste. Somente no inferno dos outros me é possível alimentar o vício insuspeito no silêncio. E se me lembro do poeta, sucumbindo à solidariedade (Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas), é porque de longe a grafia dos canalhas me escapa.
Santa puta protetora dos desgraçados, concedei-me a graça de umas linhas ligeiras onde meus olhos possam se prender, esquecidos da putaria monótona que se reproduz como bicho no cio nos descampados virtuais. Olhai as vestes esfarrapadas deste filho degenerado e, apiedada, libertai minha caixa de mensagens da idiotice estéril dos recadinhos do Orkut.
Sou vadio e pedinte. Mendigo verbo como quem junta moedas de dez centavos nos bolsos cheios dos andrajos. Acolho as palavras, alcovito as frases, greto os fonemas. Mas quando verifico minha correspondência eletrônica, emporcalhada de sacanagem, spam, releases e coisas do gênero, penso nos amigos e pergunto aos botões que minhas camisas de algodão não possuem: “Tem alguém vivo aí?”.

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1 Comentário »

  1. O problema, Rian, é que seus textos sempre me deixam sem verbos..

    Comentário por outra carol — outubro 16, 2007 @ 9:20 pm


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