Spleen e charutos

outubro 10, 2007

Do alto

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 11:29 am

Rian Santos

 

Enfurnado na alegria previsível das aventuras domésticas, procuro a varanda feito um timoneiro engasgado com as gasturas da tempestade. Ainda não é hora de anunciar a ventura da terra a lamber a vista, afagando a lembrança agarrada na memória mareada e insegura das retinas, mas ao menos resta a possibilidade do acaso, maresia que come o destino desgovernado dos passantes; um diabo de tocaia, no encalço dos romances adormecidos sob a saia das meninas. Haverá criatura desinteressada das promessas da altura, indiferente aos panos da vida arriados, cegos do vigia que conta os seus passos de cima?

 

Desocupado, indiscreto, pervertido… Palavras grávidas de subjetividade. Felizmente, a fé dos adjetivos não remove a montanha dos apartamentos enganchados a dois passos, ali defronte. Não há reza que tape a boca de tantos enredos sussurrados pelas frestas desprevenidas de persianas e cortinas. Coisas de Shakespeare e Nelson Gonçalves! Isso, pra não mencionar a possibilidade de uns peitinhos, um passeio inocente de camiseta, as rendas, os babados de uma calcinha…

 

Talvez por isso, séculos de culpa católica ameacem macular o abandono contemplativo do herege exilado nos píncaros de cismas subtraídas. Larry Flynt encenando de vara na mão, numa imitação de divindade misteriosa, um arremedo obsceno de onipresença como quem orquestra, em meio ao pranto ordinário que lhe alcança aos pedaços, misturado ao burburinho das ruas, os grunhidos metropolitanos.

 

No alto ficamos mais pertos da figura caricata que fazemos de deus. Reconhecemos a ânsia das gentes e lhe atribuímos a dimensão insignificante que possuem. É tão reles ser humano que por vezes parece justificável a transpiração dos crentes em pregação. Deixa que eles distribuam dogmas e acusações como inquisidores a procura de bruxas para alimentar a fogueira de suas crenças ressequidas. No final das contas, pastor, rebanho e ovelha desgarrada se comportam todos de maneira semelhante. Vai, cambada! Corre atrás do trio elétrico, aproveita a histeria lânguida das liquidações. Olha que não dura pra sempre o nervosismo das entranhas. Do alto eu vejo.

 

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1 Comentário »

  1. Isso me lembrou Lennon e MacCartney..

    “Day after day, alone on a hill, the man with the foolish grin is keeping perfectly still. But nobody wants to know him, ‘cause they can see that he’s just a fool and he never gives an answer. But the fool on the hill see the sun going down and the eyes in his head see the world spinning ‘round (…) He never listen to them, he knows that they are the fools”.

    Comentário por outra carol — outubro 10, 2007 @ 3:23 pm


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