Spleen e charutos

outubro 9, 2007

Sexo frágil

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 12:09 pm

Rian Santos

 

Isso de pintar as unhas poderia parecer normal a outro. Não a mim. E a minha personalidade, forjada nos tamboretes dos botecos, como fica?  E as minhas convicções, já tão esfaimadas? Houvesse alguma cigana encarquilhada previsto esse acontecimento improvável e ficaria sem o seu pagamento. “De besta eu só tenho essa cara lisa, vovó”.

Pois é. Roda mundo, roda-gigante. Roda-moinho, roda pião… E ela me pediu com tanto cuidado que só me restou aquiescer e rezar para todos os santos que não conheço para que o pessoal da redação não reparasse no brilho metrossexual instalado na ponta de meus dedos. Homem de pouca fé, me lasquei!

Depois das brincadeiras que davam conta de minha recém adquirida estabilidade afetiva, termo da vida errante que eu desbaratava nas casas de tolerância mais baratas do mercado local, eu seria obrigado a suportar mais essa. Constrangido, poderia alegar a fragilidade de minhas unhas compridas, vítimas indefesas das cordas tensas do violão. Mas quem daria atenção ao argumento? A vingança veio a galope, implacável.

Quando algum amigo (e a maior parte de meus amigos é quase tão machistas quanto eu) pedia a saideira apressadamente, intimidado pelo telefonema irado da esposa, não havia desculpa capaz de me impedir o sarcasmo. Não me era possível evitar a grande satisfação que a vida largada me proporcionava nesses momentos. Eu, vagabundo e solitário, só chegaria em casa quando o dinheiro pouco da carteira me obrigasse à despedida. Os livros guardados na estante não sentiam minha falta, podiam aguardar.

O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração… Como eu poderia imaginar que o futuro me reservava o mesmo destino de telefonemas ansiosos que provocavam o desgosto de meus amigos anciãos? Contrariados pela cerveja abandonada no copo, eles se despediam sabendo que seriam alvo da maledicência dos companheiros de bar. “Se fosse comigo, ela esperava…”.

Esperava coisa nenhuma! Hoje, quem teme o telefone sou eu. Apalpo o aparelho no fundo do bolso, estragando o esmalte incolor, como o condenado que passeia os olhos pela lâmina da guilhotina, momentos antes da execução. Logo eu, que me recusei o quanto pude à polêmica de Brookeback Mountain, atendendo aos caprichos de uma fêmea atenciosa!

O Aurélio não deixa margem para dúvidas. É machista quem não aceita a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. Como eu, que sigo a anedota à risca e tenho sempre a última palavra lá em casa: “Sim, meu bem?”.

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4 Comentários »

  1. foddddaaa!!!!!!!!!!!

    Comentário por aninha — outubro 9, 2007 @ 3:46 pm

  2. Assim eu fico me achando, hhehehehe

    Comentário por Calango — outubro 9, 2007 @ 3:55 pm

  3. Rian, amigo meu, você não imagina o prazer que tomou conta de mim após ler essas palavras: o sarcasmo agora é meu. Embora que, devo confessar, seu brilho metrossexual não chega a ser uma surpresa. O azulzinho, há tempos, já anunciava todas essas mudanças.. que nem me surpreenderiam acabar numa bem “pior”. Boas risadas, ao menos!!

    (Ótimo texto, aliás. Só pra variar um pouquinho).

    Comentário por outra carol — outubro 9, 2007 @ 4:15 pm

  4. E eu que pude ver de pertinho sua estabilidade afetiva às vezes nem acredito! Embora, já tenha me acostumado! Mas essa eu quero ver!!! Espero que não seja apenas figurado!!!

    Beijão e parabéns pelo texto!

    Comentário por Rita Brasileiro — outubro 9, 2007 @ 11:02 pm


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