Spleen e charutos

outubro 8, 2007

O homem da multidão

Filed under: Spleen — spleencharutos @ 8:07 pm

Rian Santos

Só acredito na criação vadia. Uma canção só é bem vinda quando estraga a sola dos sapatos antes de bater à minha porta. No chapéu cansado de sol, mais do que vestígio de calor, os poemas de carne e osso guardam a danação de muita estrada. Foi num desses tropeços fatigados que a música de Deilson Pessoa, catinguenta de tantos atalhos, deu com os pés em minha casa. Poeira nos panos, calos nos olhos e os ombros arqueados, dobrados pela distância do caminho.

Narcótico para os abandonados, asilo para os foragidos, a multidão é também objeto e personagem. Tragado pela cidade, embriagado de passeio, Deilson encontrou num dos tipos urbanos mais curiosos de Aracaju uma oportunidade única para dialogar com a tradição poética inaugurada por Baudelaire na segunda metade do século XIX. Ao transformar a “véia do shopping” em alegoria lírica do consumismo contemporâneo, a canção Maria Augusta, décima faixa de Súbito e-feito (disco de estréia do compositor, com lançamento previsto para o final do ano), reproduz os espaços de desesperança identificados por Baudelaire na capital francesa de seus dias, ao tempo em que desafia o senso comum e aponta, onde todos observam somente o folclórico, a ferida encoberta pela tinta espalhada na cara do palhaço.

Com lembranças mais pesadas do que socos, Baudelaire aprisionou em suas palavras a desorientação provocada pelo mercado na incipiente sociedade de consumo parisiense. Produto de seu tempo, Deilson realiza com sua música um inventário dos acidentes enterrados em seu próprio quintal. Se em Maria Augusta importa desmascarar o pitoresco e exibir o cancro disfarçado pelo Ray Ban pendurado no nariz da senhora, encarnação sorridente da maior de nossas lendas urbanas, o restante do disco risca as paredes de um apartamento afetivo, suspiros orgásticos e saudades, como a dançarina virtuosa que pendura o lençol na janela logo depois da primeira trepada.

Experiências condenadas à forca de seis cordas armada sobre o violão de Pessoa, as canções de Súbito e-feito expiam os fantasmas do compositor e devolvem-nos às calçadas onde foram apanhados, explorando uma necessidade de afirmação ignorada pelo restante de seus conterrâneos. Com passadas e dedilhados, spleen e charutos, nosso flâneur sertanejo permanece indiferente à parábola bíblica e insiste em colocar sua música no meio da rua. Pérolas atiradas aos porcos, ocupados em chafurdar a lama.

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