Spleen e charutos

Setembro 16, 2009

Karne Krua no ‘Eu Sou do Rock’

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:31 pm
Vinte anos de barulho, sem nenhuma nostalgia

Vinte anos de barulho, sem nenhuma nostalgia

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quando o camarada Estranho, da Boca de Forno Produções, me enviou o release do Festival Eu Sou do Rock, que deverá reunir algumas das bandas mais virulentas da cidade na área externa do Teatro Lourival Baptista, no próximo domingo, tratei logo de botar o olho na programação. A ansiedade possuía justificativa. Talvez fosse a oportunidade necessária para registrar a história da banda mais importante de todo o cenário alternativo de Sergipe. Não me arrisco a dizer se existe justiça no mundo, mas os anjos degenerados do acaso e da distorção sorriram pra mim.

Minha intenção inicial era reunir algumas impressões a respeito da Karne Krua durante um ensaio dos caras, mas o veterano Sílvio, vocalista e fundador da banda, me explicou que eles estão num ritmo bacana de shows, de modo que o repertório já está meio azeitado, dispensando a necessidade de uma nova reunião com os músicos. Isso não nos impediu, contudo, de lorotar um bocado, enquanto o rapaz atendia à molecada que continua procurando informação na Freedom.

Durante a conversa, Sílvio me explicou que o hardcore está na base de tudo o que a Karne Krua faz desde a sua fundação, há mais de vinte anos. Isso nunca representou empecilho, entretanto, para que eles utilizassem a batida vertiginosa do gênero para imprimir uma personalidade particular em suas composições.

“O alicerce é o hardcore, mas nós sempre incorporamos outros elementos, sem nenhuma limitação. Eu não gosto dessa história de gênero, de se prender a determinados dogmas de maneira religiosa, respeitando determinadas fronteiras. É por isso que nosso público é bem heterogêneo, e aglomera tanto a molecada que está começando a ouvir rock, quanto o quarentão de cabelos brancos que nos acompanha faz tempo”.

Quando Sílvio começou a se interessar por música, nos esmaecidos anos 80 (Itabira é só um retrato na parede, mas como dói!), influenciado pelos irmãos mais velhos e por um ambiente familiar propício, a paisagem de Aracaju era muito diferente, e não convivia pacificamente com a negação dos modelos de comportamento que cultivava. Segundo Sílvio, não era raro o camburão acompanhar um grupo de cabeludos de maneira ostensiva.

“No imaginário da época, roqueiro era tudo drogado, marginal, batia em mulher. Claro que era todo mundo moleque, com dezesseis, dezessete anos, querendo mergulhar no universo dos ídolos, e a droga sempre caminhou de mãos dadas com o rock. Mas tudo depende de como o cara lida com isso. Tem gente que afunda, tem gente que sai nadando, de mansinho…”, defendeu com alguma ironia.

Foi motivado pela curiosidade despertada por esse universo, que Sílvio começou a fazer música. “Depois de ouvir os discos que meus irmãos traziam da loja onde trabalhavam, de conhecer a música sessentista, setentista, eu entendi que tinha que buscar a emoção de fazer música. Era a peça que faltava pra completar o quebra-cabeça. O rock era a nossa grande arma, a gente tinha que montar uma banda”.

Nos tempos da Sem Freio na Língua, banda que lançou as sementes para o surgimento da Karne Krua, o cenário também não era propício para a divulgação da música autoral, mas os caras pretendiam, deliberadamente, fazer história.

“Me lembro de um show em que anunciaram que o cara ia tocar com uma Fender. Foi a grande atração do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado”.

Sílvio continua. “Desde o início, quando fundei a banda com Almada, defendemos a bandeira da música autoral. Era uma coisa ideológica, de batalha mesmo. Isso também pode explicar a nossa vitalidade. Quando um menino vem me pedir conselho, tentando entender como a Karne Krua sobrevive há tanto tempo, explico que uma banda tem que estar sempre em atividade, ocupando os espaços, renovando o seu público, procurando novos desafios. O cara precisa acreditar no que está fazendo. O resto é lucro”.

Serviço:

Local:
Teatro Lourival Baptista
Data: 20 de setembro (domingo)
Hora: 15 horas

Setembro 14, 2009

Balançando o rabo

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:24 pm

Rian Santos

Cuspo as palavras
Como libertasse um cachorro
Basta um cochilo
E elas correm, desembestadas
Balançando o rabo
Animal no cio
Da língua pendente
Feito criança morta, no focinho
Baba, bafo e desatino

Setembro 9, 2009

Maria Scombona nua e crua

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:48 pm
O instinto, o sotaque e a naturalidade de Henrique Teles registrados em novo trabalho da Maria Scombona

O instinto, o sotaque e a naturalidade de Henrique Teles registrados em novo trabalho da Maria Scombona

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Tava pior do que couro de pica. Foi preciso mais de uma semana para encontrar uma brecha na agenda da rapaziada. Os integrantes da Maria Scombona são músicos requisitados, que se desdobram em diferentes bandas para pagar as contas, e transpiram sobre os instrumentos para garantir o pão de cada dia. Na noite da última terça-feira, no entanto, Rafael Jr (bateria), Henrique Teles (vocal) e Robson Souza (baixo) conseguiram arrumar um tempinho e dispensaram duas horas de atenção a este cronista, agradecido pela oportunidade rara de fazer jornalismo de verdade.

O terceiro disco da Maria, não é novidade pra ninguém, deve ser lançado nos próximos meses. Com o título provisório de “Um nu”, o novo registro de uma das bandas mais relevantes no atual cenário da música sergipana vai contar com onze faixas que, no entendimento de Rafael Jr, perseguem uma sonoridade mais crua.

De acordo com Henrique Teles, que assina todas as canções da banda, a observação faz sentido. Ele acredita que o músico não pode ficar entronado no conformismo, governando com enfado as fronteiras delimitadas pelas próprias pegadas. “Vale a pena se surpreender. A cada novo trabalho, tomamos o cuidado necessário para não nos repetir”.

Quem conhece a discografia da Maria, sabe que a observação não é retórica. Embora conserve certa coerência, preservando alguns elementos fundamentais, os dois discos já lançados pela banda registram formações e escolhas diferentes. Se em “Grão”, o primeiro trabalho da banda, os caras atiram em várias direções – dos aboios ao blues, do coco de embolada à soul music, do forró ao jazz –, em “Mais de um nós” o contorno das canções é desenhado quase sempre pela guitarra jazzy de Saulo Ferreira (um verdadeiro monstro das seis cordas). Henrique Teles observa, contudo, que a Maria nunca foi carregada nas costas por nenhum músico em especial.

“Não vejo nada em nosso trabalho que não seja totalmente indispensável, nem qualquer elemento que se destaque mais do que outro. A Maria veio em função de meu trabalho de compositor. Como não tenho noção instrumental, no entanto, sempre fiquei muito confortável para dividir essa responsabilidade, mas a composição é maior do que tudo”.

Henrique acredita, inclusive, que essa divisão de responsabilidades deve ficar ainda mais fácil nesse último trabalho, em função do aperfeiçoamento procurado pelos músicos, alunos do curso de música oferecido pela Universidade Federal de Sergipe. “Para mim, que estou de fora, é mais fácil perceber que Rafael, por exemplo, naturalmente responsável pela parte rítmica, agora consegue dialogar com o resto da banda e entender o que eles estão propondo. O nível de diálogo cresceu muito”.

Outro mito combatido por Henrique Teles diz respeito às supostas bandeiras levantadas pela Maria. Ele explica que nunca se propôs a defender o regionalismo como o caminho mais viável para a música sergipana, ainda que combinado a elementos universais. Dono de um sotaque carregado, o compositor entende que o seu processo de composição é natural e intuitivo, e que se, por vezes, a Maria percorre os caminhos áridos da música nordestina, isso ocorre sem nenhuma preocupação, além da música.

“O que eu defendo é não ter vergonha de ser como sou, de falar como realmente falo. Não sabemos quem somos, não nos reconhecemos. A destruição de nossa cultura é a destruição de nossa auto-estima. Essa história é muito característica de Aracaju. É nosso perfil de importador, que reflete uma cultura de povo colonizado. Na minha escola, era proibido falar ‘oitcho’, diziam que era errado. Errado um cacete!”.

Henrique Teles continua, encerrando a questão e a entrevista com a elegância costumeira. “Uma das coisas que mais me agradam no nosso trabalho é que a gente conseguiu fugir da caricatura. Não nos vemos obrigados a usar um tambor, se ele não for necessário, nem a falar ‘cabrunco’ se isso não for indispensável ao que a gente está propondo. O local está presente somente quando é necessário, e o bom é que todo mundo percebe isso”.

Setembro 6, 2009

Os calos do artista

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 5:21 pm
O trabalho de Fábio Sampaio parando o trânsito, literalmente

O trabalho de Fábio Sampaio parando o trânsito, literalmente

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

“Se eu soubesse o que é arte, não diria a ninguém”. A citação foi feita por Anderson Camilo, durante a birita que rolou depois da intervenção mais recente do artista plástico Fábio Sampaio. O convite chegou por e-mail, intimando este escriba, entre outros amigos do rapaz, a emprestar o corpinho asqueroso, moldado nas bodegas mais suspeitas da cidade, a uma causa nobre como nunca seremos. Para mim, além disso, foi uma oportunidade inestimável de falar besteira e dar risada com alguns dos maiores personagens de nossa arte contemporânea.

Fábio acreditava que Conelizados seria somente mais uma intervenção do Projeto “Interacidade”, que vem sendo desenvolvido desde o distante 2001, e deverá ilustrar um catálogo com o conjunto de sua obra nos próximos meses. Mas o fato é que o artista acabou reafirmando uma visão particular, que vem caracterizando o seu trabalho.

Além de mobilizar uma dúzia de malucos, que no último sábado deram as mãos e interromperam o trânsito nas duas pistas da avenida que dá acesso ao Shopping Jardins, chamando atenção dos transeuntes para a importância do respeito à faixa de pedestres, o artista reiterou a crença na função social que, ao que parece, está atrelada à maneira como ele enxerga o papel do artista.

“A intervenção tem a função de alertar as pessoas, de uma forma divertida e participativa, a respeito do crescimento do fluxo de carros na cidade, e a necessidade de um trânsito mais seguro para motoristas e pedestres”.

Corta para o boteco. Quando Camilo encheu a boca de Picasso, na tentativa frustrada de interromper as gargalhadas de Marcos Vieira e João Valdênio, queria desviar o rumo da conversa, que versava sobre o insólito aparecimento de um calo em seu cu. Sem querer, no entanto, ele deu um norte à presente matéria (vou me atrever a chamá-la assim). Fábio Sampaio pode não saber exatamente como definir essa coisa vaga que chamamos de arte, mas já consegue vislumbrar no ofício algum sentido.

Setembro 2, 2009

Os cupins de São Francisco

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:37 pm

Rian Santos

Os cupins comeram
Todas as portas de minha casa
Não esqueço mais as chaves
Não me tranco no banheiro
Todas as gavetas abertas
Nuas
Nenhum dinheiro
Agora
Chuva ou sol
Ando sempre de pijama
Perdi os anéis que penhoravam meus dedos
Na poeira do chinelo
Entre a televisão e a padaria
Eles roeram o armário do pão dormido
Os livros na estante
Os santos que moldavam minha fé em alvenaria
Eles derrubaram quatro paredes
E lavaram minha casa com a luz do dia

Agosto 31, 2009

Cara ou coroa

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 5:27 pm

Rian Santos

Minha vida não vale dez centavos
Não paga o disco de cobre
Brincando no espaço
Cara ou coroa
Uma sentença diferente em cada face
Roleta russa
Uma bala tonta
Girando solitária no tambor
Carrossel desgovernado
Furo o sinal vermelho
Faço dívidas
Peço dinheiro emprestado
Minha última chance
Numa moeda de dez centavos

Agosto 29, 2009

Mulheres e cigarros no colarinho

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 2:17 pm

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Não consigo dormir sem segurar a mão dela
Fecho os olhos, fustigado pelo cansaço
E caminho na prancha
Me equilibrando sobre o vazio
Há um receio aquoso guardado em cada passo
No mar faminto, nenhum alívio
Eu, à deriva
Sem bóia
Sem bote
Sem tábua de salvação
Uma garrafa de conhaque boiando em meu hálito
Mulheres e cigarros nas dobras do colarinho
Depois de tanto marulho
Cumpre o naufrágio
Afundo a cabeça no travesseiro
E sigo viagem clandestino
Joguei cartas
Lancei dados
Cinzeiros transbordando
Copos vazios
Tanta puta com frio na praça
E ainda há quem prefira amar sozinho…
Só consigo dormir segurando a mão dela
Com os olhos vendados, caminho na prancha
Afundo a cabeça no travesseiro
Mergulho, abandonado às vagas do destino

Agosto 27, 2009

Sessão Notívagos exibe ‘Recife Beat’

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:46 pm

A cena musical mais interessante dos últimos vinte anos em documentário inédito

A cena musical mais interessante dos últimos vinte anos em documentário inédito


Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O professor Luciano Correia me ensinou que furo não é a notícia que é publicada primeiro em determinado veículo, mas a notícia que depende do esforço do repórter para vir à tona. Não é por empolgação ou vaidade, portanto, que adiantamos a divulgação da quarta edição da Sessão Notívagos. Nosso objetivo é retificar uma informação amplamente divulgada pelo produtor cultural Roberto Nunes, oferecendo o apoio necessário para que projetos da mesma natureza frutifiquem aqui na terrinha.

Isso posto, é preciso lamentar. Ainda não vai ser dessa vez que veremos os veteranos da Karne Krua quebrando tudo no foyeur do Cinemark Jardins. Problemas de ordem técnica, junto à distribuidora do filme “Guidable”, obrigaram o produtor cultural a adiar esse espetáculo inusitado. Mas nem tudo são lágrimas. No lugar do documentário sobre a banda Ratos de Porão, na próxima semana a Sessão Notívagos exibe o filme “Recife Beat”, além de abrigar uma apresentação especial da banda NaurÊa.

Dirigido por Pedro Paulo Carneiro, o documentário “Recife Beat” (Brasil; 2008) é focado na cena musical mais interessante dos últimos vinte anos: o manguebeat. Com o festival Rec Beat como pano de fundo, os protagonistas do movimento encabeçado por Chico Science contam em primeira pessoa todos os detalhes que levaram a cultura pernambucana a conectar-se com as últimas tendências da música, do teatro, da dança, da distribuição de informação, do cinema e da cultura popular. Um documento completo para entender os caminhos da nova música brasileira.

Em entrevista concedida para o portal Rabadas Clube o diretor fala de sua ligação com o movimento. “Minha ligação é quase espiritual. A partir do momento em que ouvi o CD Da Lama Ao Caos, algo dentro de mim mudou para sempre. Foi como se meus olhos se abrissem, enfim… Sou mais ligado ao carnaval do Recife que é, efetivamente, o mais tradicional e respeita as origens culturais. Não gosto muito do de OLINDA em virtude de se aproximar muito do carnaval baiano, onde a maior preocupação não é a manifestação cultural”.

NaurÊa – A NaurÊa toca basicamente o que chama de Sambaião. Como o nome sugere, uma mistura de samba e baião.
Mas não pára por aí. A banda recebe informação musical de várias partes do Brasil e do mundo: das batidas populares do universo negro de Laranjeiras ao costarriquenho Reggaeton; da música pouco convencional de Tom Zé às melodias de Cuba e do Leste Europeu; das guitarras “caribenhas” do Pará ao apelo do R&B e do Hip Hop. A idéia, muito mais do que fazer mistura, é mostrar as potencialidades do forró, é ter uma sonoridade própria com um sotaque local.
Os ingressos para a Sessão Notívagos são limitados e estarão a venda antecipadamente ao preço de R$ 15,00 e R$ 7,50 a meia.

Serviço:

Local: Cinemark Jardins
Data: 06 de setembro
Hora: 23h59

Agosto 22, 2009

O filho que ainda não veio

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 1:54 pm

No escuro de sua intimidade, a calcinha manchada entoava cânticos de esperança embebidos em alfazema. Era a certeza pela qual ansiava, esperma derramado sobre ventre infecundo, a manutenção do egoísmo que Maria exercitava desde que se entendia por gente

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Desde então, começou a sonhar com sangue. Bastava fechar os olhos para imaginar o líquido quente e viscoso, vermelho como um assassinato, escorrendo de sua fenda pelas pernas grossas, irrigando uma expressão safada que lhe nascia no canto da boca e aumentava o contorno de seus lábios num sorriso de puta. No escuro de sua intimidade, a calcinha manchada entoava cânticos de esperança embebidos em alfazema. Era a certeza pela qual ansiava, esperma derramado sobre ventre infecundo, a manutenção do egoísmo que Maria exercitava desde que se entendia por gente.

Enquanto sangrasse, haveria tempo para tudo o que ela mais queria. Uma passagem só de ida para o velho mundo, cafés apinhados, orgias palacianas. Tudo o que não alcançava com as mãos era apalpado no futuro, com os dedos enfiados no grelo e espasmos lascivos de ansiedade. Sabe o poema incompleto no fundo da gaveta, o livro abandonado na terceira página, o curso de pintura eternamente adiado para o ano que vêm? Haveria tempo para tudo. Seu nome não era Pedro, mas ela vivia esperando o trem.

Ainda menina, imaculada como as santas do catecismo, rezava todas as noites com o perfume do paraíso enterrado no focinho. Era assim que se preparava para a lama que pressentia. A sua carne preta desabrochava com uma fome de flagelado e fazia súplicas com a voz chorosa de um pedinte profissional. Pelo amor de Deus, uma carícia!

Quando aprendeu a beber, virou o copo num gole. Ela queria amar por todos os buracos, a pele coberta de mordidas e hematomas. Virou um bicho. À noite, miava como os gatos do telhado. Pela manhã ronronava, mastigando a lembrança. Ela era de quem chegasse primeiro, o primeiro macho que encontrasse, o primeiro “psiu” na frente da obra. Amava desinteressadamente, explorando a vocação de satisfazer a qualquer impulso.

Era preciso sangrar, expulsar a culpa coagulada pela xoxota e lavar os pentelhos em água corrente, com sabão em abundância. Sem feto, sem filho, sem compromissos firmados além do próprio umbigo, ainda haveria tempo para orgias de cavalos desembestados, viagens sem roteiro e reuniões barulhentas até o nascimento de outro dia. Era a única coisa que ela pedia.

Agosto 21, 2009

‘Um blues pra ela’ no Capitão Cook

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:46 pm
Recomenda-se uma garrafa de conhaque

Recomenda-se uma garrafa de conhaque

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

O encontro foi marcado na porta da Freedom, templo informal do rock sergipano. Antes de inventarem internet, MP3 e Youtube, era pra lá que a molecada corria na esperança de estragar os ouvidos com a sujeira abençoada das guitarras. Quem já entrou na loja, mesmo por apenas um instante, conhece a atmosfera nostálgica que domina aquele pequeno quadrado. Nas paredes cobertas de discos e camisas pretas, um tributo ao tempo em que empunhar uma guitarra era mais do que uma opção estética. Um tributo ao sentimento sincero que impregna as composições da Máquina Blues.

A caminho do estúdio, o guitarrista Melcíades, dono do set mais invejado da terrinha, revelou suas impressões a respeito da cena local, e entoou a cantinela que estamos todos cansados de escutar. É preciso abrir novos espaços, sair do gueto e conquistar novos públicos. Poderia ser choradeira de quem não tem coragem de riscar um caminho no mapa, mas no caso destes blueseiros a avaliação é mais do que um diagnóstico. Quando uma banda com a qualidade da Máquina Blues reclama novas oportunidades, devemos acolher a sentença como um grave sintoma de infecção.

Antes de desembarcamos, ainda houve tempo para o rapaz reiterar sua paixão pelo instrumento que personifica o gênero, e reconhecer o talento de muita gente boa que corre o braço de uma guitarra se equilibrando entre solos e sustains. “É a minha maior paixão. Tem muita gente aqui que consegue tirar um som bom do instrumento”.

A reverência é tamanha que Melcíades se preocupa até com o destino de seus brinquedinhos. Referindo-se a uma Fender Telecaster branca que o boa vida do Allen Alencar lhe comprou recentemente, suspirou aliviado. “Fiquei muito feliz de ter vendido aquela Tele pra Allen. Ele toca muito!”.

Já no estúdio, a rapaziada não adiantou muita conversa. Foi só o tempo de ligar os instrumentos, e mandar ver no repertório, fazendo justiça ao legado de nomes como Mudy Waters, Jonh Lee Hooker, e Robert Johnson. Em todas as músicas, um universo urbano (pontuado por uma Strato Old Fashion dos anos 50), denso como a vida dos maiores heróis do Blues. Na voz mansa de Sílvio – um roqueiro das antigas, de cabelos brancos, calça justa e meia lua – muita fossa e bebedeira. Pena ninguém ter uma garrafa de conhaque malocada no case…

Nos berros do ampli valvulado de Melcíades, muita música nova, com a natureza crua que o público mais antigo conhece, e que deve ser transportada para o próximo trabalho da banda. De acordo com o guitarrista, o quarteto já começou a trabalhar na pré-produção de algumas músicas, mas o efeito alcançado não os deixou satisfeitos. Provavelmente, a gravação será realizada como no debut da banda. Todo mundo tocando junto, ao vivo, sem nenhuma frescura.

Para a apresentação desta noite, a Máquina Blues promete ainda mandar uns covers de responsa, lá pro final do show, quando todo mundo estiver embriagado. Se eu fosse o leitor, atenderia ao conselho da banda e não saía de casa sem uma garrafa de Domecq embaixo do braço.


Serviço:

Local: Capitão Cook
Data: 22 de agosto (sábado)
Hora: 22 horas

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