A Agência Voz começa a publicar, a partir de hoje, uma grande entrevista com Rubens Marques, presidente da CUT em Sergipe, pautada pelas demandas dos movimentos sociais. Nessa primeira oportunidade, o sindicalista contextualiza a criminalização do setor e discute as relações com a esquerda aboletada no poder
Outubro 1, 2009
Setembro 29, 2009
Tava preparando a hora de voltar
Pra quem tava com saudade da prosa rasteira do Calango…
Setembro 24, 2009
Música de preto no Capitão Cook

Ferraro Trio: Um exercício que vale a pena
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os grooves do funk e da soul music conjugados à energia visceral do blues. São esses os poucos ingredientes que o pessoal do Ferraro Trio e da banda Máquina Blues prometem jogar no caldeirão sonoro que tomará conta do Capitão Cook na noite de amanhã. De acordo com Rafael Jr, baterista do Ferraro e um dos militantes mais ativos da cena local, não poderia haver palco mais adequado para o trabalho da banda. “Antes de fazermos o primeiro show já achávamos que era o lugar perfeito pra nós”. Como determina o hábito que adotei nessas ocasiões, a apresentação serviu de pretexto pra um lero com os caras. Afinal, Não é todo dia que duas bandas sergipanas se dedicam à música negra com tanta qualidade.
Jornal do Dia – Como surgiu a idéia de montar uma banda instrumental? Viver de música já não era complicado o suficiente pra vocês? Em que medida isso possui relação com o curso de Música que o pessoal do Ferraro Trio cursa na UFS?
Rafael Jr – Bom, a gente já tinha entrosamento de outros carnavais, tanto musical quanto pessoal, principalmente na Maria Scombona. O projeto instrumental serviu para coroar isso tudo. Nossa amizade é cada vez mais forte e acho também que estamos mais maduros musicalmente, podendo levar isso para o som do trio. A questão de viver de música não influencia. Aqui a música está em primeiro lugar, e se ela não der retorno, tudo bem, é um exercício que vale a pena. O curso de Música na UFS também tem a ver, estamos caminhando para o término da graduação e certamente somos músicos melhores depois desses anos seguindo ensinamentos de Mestres e Doutores em Música. Nossa visão do fazer musical alcança uma abrangência maior e melhor.
JD – No release que registra as intenções do projeto, vocês mencionam a ambição de atingir um público variado, “de jazzistas a rockers, além dos amantes da música negra em geral”. A pretensão foi atingida? O que falar do público consumidor de música em Aracaju?
Rafael Jr – A questão é que muitas vezes a música instrumental pode ser bastante chata para leigos, pra quem não é instrumentista, com solos intermináveis e músicas longas e/ou pouco acessíveis em sua forma ou sonoridade. A idéia é que tanto os caras mais “fissurados” em música quanto suas namoradas possam curtir o som, e pra isso não é preciso fazer uma música descartável ou pensando nas FMs. O balanço da música negra americana serve como base e linha condutora, pra gente ter uma cara, mas estamos abertos à música brasileira, ao jazz e ao rock. Tudo isso faz parte do nosso background musical e acho que tá tudo bem dosado no nosso som.
Sobre o público consumidor em Aracaju, acho que sempre tem gente interessada e aberta, estamos aí pra tocar pra eles. O objetivo será atingido com o tempo, estamos trabalhando sério pra isso. E que venham cada vez mais jovens e coroas pros nossos shows.
JD – Em uma matéria recente, eu me atrevi a dizer que o batizado da faixa Capitão Cook, uma das composições do trio, rendia homenagem a um dos poucos espaços abertos para a divulgação da música autoral da cidade. O atrevimento possui algum fundamento? O Capitão Cook deve mesmo ser encarado como templo informal da música produzida em Aracaju?
Rafael Jr – Acho que é isso mesmo. Antes de fazermos o primeiro show já achávamos que era o lugar perfeito pra nós, e é sempre bem legal tocar lá. A partir dessas primeiras investidas no “templo” já fechamos apresentações em outros locais, como na UFS ou no Projeto Freguesia, da Funcaju. Foi bem legal o show que fizemos na orla, um sábado à noite, cedo, de graça. Tinha muita criança, turista, famílias comendo tapioca… Isso não tem numa casa noturna!
JD – Parece que a idéia que possibilitou a fundação do Ferraro Trio é bem antiga. Porque ela demorou tanto tempo para ser posta em prática?
Rafael Jr – Não é tão antiga, mas cozinhou no mínimo durante um ano inteiro! Saulinho já fazia música instrumental com mais freqüência em outros grupos; Robson não vinha tocando muito jazz e eu também tava parado desde o fim da Poyesis/Jazz Café, na qual tocava quase toda terça. Fica uma lacuna pra quem ama jazz, que é nosso caso. Gosto muito de música pop, mas tem hora que enche o saco! Fazer diversos trabalhos diferentes nos mantém vivos musicalmente, informados, socializados com o “metiê”, e em dia com nossos instrumentos, algo necessário para operários da música como a gente. A demora foi organizar agenda mesmo, conciliar com as disciplinas da UFS, etc. Mas quando foi, foi de vez!
JD – Quem baixou o EP virtual de vocês, tá ligado na “homenagem” personalista realizada para Michael Jackson. Ela foi gravada antes ou depois da morte do crioulo mais branco do mundo (ou do branquelo mais preto que já existiu, sei lá…)? Vocês realmente curtem o som do cara?
Rafael Jr – “Beat It” foi gravada antes da morte, várias pessoas já tinham curtido e comentaram que estávamos em sintonia. Já a versão de “Bad”, que não está no EP mas tem no www.myspace.com.br/ferrarotrio, foi gravada depois. Fizemos um show no Cook no aniversário de um mês da morte e tocamos essas duas e ainda um medley de canções da fase Jackson 5/Motown, que particularmente eu prefiro.
O maior fã na banda é Robson Macaxeira, curte desde moleque! Conheci melhor os álbuns solos através dele, que também me fez respeitar o trampo do cabra. Grandes arranjadores, produtores e músicos tocavam em seus álbuns.
JD – E o que a galera pode esperar do show de amanhã à noite? Alguma surpresa? Porquê a Máquina Blues como convidada?
Rafael Jr – Na verdade, foram eles que nos convidaram. As duas bandas curtem o trabalho uma da outra e já era desejo dividirmos o palco. Funk, Jazz e Blues têm tudo a ver! Música de negão, né véio? A cada show trazemos um convidado diferente, e nesse especificamente teremos metais em algumas músicas e uma jam com o guitarrista da Máquina Blues no fim do show, celebrando o som de Jimi Hendrix, uma influência decisiva pra qualquer guitarrista.
Setembro 23, 2009
O amor insistente de Cleomar Brandi

Mulheres famintas, picuinhas cotidianas, e o respeito à palavra no primeiro livro de Cleomar Brandi
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Um escriba envergonhado assina essa entrevista. Cleomar Brandi, uma das figuras mais queridas do jornalismo sergipano, o melhor copo da cidade, se dispõe a falar do nascimento de seu primeiro filho, e o irresponsável diante de vossos olhos se limita e enviar meia dúzia de perguntas para o e-mail do cronista, negligenciando o conhaque e as literatices indispensáveis à ocasião. O leitor, no entanto, pode ficar despreocupado, e encarar a leitura sem receio. Autor e personagem, dono de um texto seguro, Cleomar contornou a situação do mesmo jeito que leva a vida: Na flauta, abrindo uma janela para a poesia que seu coração abriga, sonhando alto ao mesmo tempo em que observa as miudezas cotidianas do chão.
Antes que digam por aí que isso não é jornalismo, convém lembrar. “Os segredos da Loba” será lançado amanhã, a partir das 18 horas, na sede da Sociedade Semear.
Jornal do Dia – Pelo que entendi, a partir das matérias publicadas em função do lançamento de seu primeiro livro, a paixão pelo universo feminino e pelas palavras são o grande Leit Motiv, não apenas de sua pena, mas também de sua existência. Depois de tanto tempo em contato com esse bicho arisco (nos dois casos), ficou mais fácil lidar com ele?
Cleomar Brandi – Na verdade, são dois belos desafios: a palavra e o universo feminino. Os dois são cheios de filigranas, sendas, trilhas, bifurcações (?). A palavra é inquieta, cheia de esquinas, dança capoeira. A figura feminina tanto dança um frevo como um bolero, cheia de interrogações, tem fome de minotauro. E a gente gosta de tentar decifrar isso, apenas como um amador insistente.
JD - Não sei se você concorda comigo, mas sinto falta do cuidado com a palavra no trato diário do jornalismo que se faz hoje em dia. Ao longo dos anos, Sergipe revelou grandes craques do jornalismo que demosntraram, todos eles (a gente pode citar Joel Silveira, o poeta Amaral, Luciano Correia, Fernado Sávio, entre inúmeros outros) um respeito muito especial no manejo de sua maior ferramenta de trabalho. Será que isso explica a ausência da crônica em nossos periódicos?
Brandi – Realmente, essa coisa do trato com a palavra é um problema muito sério. Acredito que a raiz de tudo está na leitura de bons livros. Minha geração, por exemplo, acostumou-se a ler de Flaubert a Machado de Assis, de Tchecov a Drummond. Isso ajudou a formar uma geração de bons cronistas, como Rubem Braga e muitos outros. Hoje, se você perguntar a muitos que fazem jornalismo se já leram Rubem Fonseca, talvez nem saibam quem é. É por isso que dizem que os cronistas estão morrendo. Mas eles estão vivos.
JD – Como foi selecionar apenas 71 crônicas num universo tão vasto como o de seus escritos (falam em mais de 700 crônicas no escuro da gaveta)? Qual a importância da publicação? Dado o desprezo corrente em relação à leitura (mesmo entre colegas jornalistas) você não teme acabar alimentando as traças dos sebos?
Brandi – Não me preocupo muito com relação às gordas traças dos sebos. E quanto ao esquecimento da leitura constante, que está se tornando quase um hábito das pessoas, isso me faz ficar pesaroso com quem não quer conhecer o mistério e a cumplicidade de um bom livro. Quando você se acostuma fazer da escrita diária e da leitura constante amigas do dia a dia, percebe que o grande segredo do mundo é a palavra chamada “conhecimento”. Pra mim, a maior riqueza da minha vida.
JD- Vou tomar a liberdade de fazer mais uma provocação. Quando comecei a publicar meus garranchos aqui no Jornal do Dia, tomei para mim que escrever significava perder amigos. Você, por outro lado, é uma pessoa muito querida. Como equilibrar a virulência, por vezes necessária, de um texto, sem agredir as pessoas eventualmente envolvidas, ou mesmo o leitor?
Brandi – Tem um ditado antigo que diz que “o pau que dá em Chico também dá em
Francisco”. Eu nunca me preocupei muito com ferir essa ou aquela pessoa com minhas opiniões. Ora, se um cara é corrupto, eu tenho que chamá-lo de safado. E chamo. Por essas coisas já criei algumas arestas, mas dá pra continuar mantendo a linha e a dignidade. Afinal, quando você escreve uma crônica num jornal e assina, qualquer processo que role é você que vai responder e não a empresa na qual você trabalha. Por isso gosto de assinar tudo que escrevo.
JD – Em entrevista ao Jornal da Cidade, você afirmou que o seu trabalho depende da realidade, deve muito à labuta no jornalismo. Isso possibilitaria ao leitor mais perspicaz identificar o momento em que o texto teria nascido. A crônica também pode ser entendida como uma fotografia?
Brandi – A crônica é mais que a fotografia. Ela é também a revelação da palavra escrita. Essa coisa de ter os olhos multifacetados faz você enxergar detalhes que podem passar despercebidos a muita gente. Acho gostoso ficar ligado em tudo. É o meu natural. Às vezes, quieto, numa mesa de bar, alguém pode pensar que estou meditando e na verdade estou é ligado em alguma coisa que está acontecendo ao meu redor.
Setembro 22, 2009
Rosângela Rocha e os perrengues do Curta-SE

Rosângela Rocha, diretora executiva da Casa Curta-SE
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Quase não saía do papel. Parece que se dependesse do financiamento local, o único festival de cinema do Estado – um dos eventos mais importantes do calendário cultural de Sergipe – teria nadado durante dez anos pra acabar morrendo na praia. A Petrobras, no entanto, abençoou a iniciativa e, semana que vem (de 29 de setembro a 03 de outubro), depois de ter sido adiado duas vezes, o Curta-SE 9 finalmente tomará conta do Cinemark Jardins.
Esperto como a gota, este escrevinhador de palavras rasteiras aproveitou a oportunidade para trocar uma idéia com a diretora executiva da Casa Curta-SE, responsável pelo festival, e fazer algumas provocações. Rosângela Rocha não se esquivou, e o resultado pode ser conferido pelo leitor logo abaixo.
Jornal do Dia – Em quase uma década de atividade, qual a maior contribuição do Curta-SE para o amadurecimento da reflexão a respeito do audiovisual em Sergipe? Qual a importância dessa reflexão?
Rosângela Rocha – Sem modéstia alguma, classificaria o cenário local em antes e depois do Curta-SE. Primeiro, pela reinserção de Sergipe no cenário nacional, incentivo à produção anual, fomentação das reflexões sobre questões antigas e contemporâneas do cinema e audiovisual brasileiro e mundial. Segundo por provocar a construção de uma política pública para o setor, ainda inexistente em Sergipe. Acreditamos que isso vá acontecer quando os realizadores se conscientizarem da importância de sua inserção no desenvolvimento de nossa cultura local, enquanto ser humano e enquanto mobilização de uma indústria criativa, formada com a participação e expressão de sua inventividade, movimentando a cadeia produtiva e o cenário econômico do setor.
JD – Ao longo desses anos, o festival passou por diversas transformações (inclusive de nomenclatura). Essas transformações podem ser entendidas como reflexos da importância adquirida pelo Curta-SE? Em que medida elas foram necessárias?
Rocha – Aprendemos com o Curta-SE a cada ano. Isso é provocado também pela movimentação do cenário do audiovisual, pelo que vamos observando, participando do cenário político do cinema e audiovisual brasileiro. Por isso, estamos sujeitos às mudanças.
JD – Conversando com alguns profissionais ligados ao maio audiovisual em Sergipe, percebi que, embora todos reconheçam a necessidade de eventos como o Curta-SE, algumas pessoas gostariam que o festival, através da Casa Curta-SE, fosse responsável por uma atividade mais continuada, que interferisse em nosso meio cultural durante todo o ano. Em sua avaliação, a crítica possui algum fundamento? Existem planos para ampliar a atuação da Casa Curta-SE?
Rocha – Embora comunguemos desse desejo, o cenário ainda não é propício porque não temos uma política pública que favoreça a continuidade de nossas ações. Toda atividade demanda de planejamento financeiro, e isso não é tão simples em se tratando de investimentos em projetos culturais em Sergipe. Como você sabe, a Lei de Incentivo à Cultura do Município não está em atividade. Também não temos o Fundo Estadual em atividade, e o incentivo privado é quase inexistente, salvo para as atividades de mega shows pagodísticos, de forró e etc… Então, fazer o Curta-SE, captar recursos para o Curta-SE já é muito difícil. Aliás, só conseguimos fazer o Curta-SE porque conseguimos nos classificar no edital da Petrobras, porque o incentivo local é difícil e quase insuficiente. Então, se mal conseguimos realizar o Curta-SE, como prever outras atividades com continuidade sem incentivo?
Mas, para aliviar um pouco nossos conterrâneos, divulgamos aqui que depois de percorrer todas as instâncias burocráticas do convênio com o Ministério da Cultura, aprovamos nosso Projeto Avenida Brasil no edital de Pontões, e teremos em breve a sua implantação, com oficinas exibições e co-produção de conteúdos para TV, o que poderá dar uma nova energia ao nosso cenário.
JD – Muitos criticam também os altos investimentos realizados recentemente pela administração pública em produções nacionais rodadas em Sergipe. De acordo com as críticas (com as quais este escriba comunga), o volume do investimento não estaria a altura dos resultados alcançados em nenhuma esfera (a estética, inclusive). Como você, na qualidade de diretora executiva do único festival de cinema realizado em Sergipe (uma militante do meio, portanto), acompanha a polêmica?
Rocha – Em parte comungo com as críticas. Ressalto que trazer produções para serem filmadas em Sergipe é importante, mas tem que ter algumas sistematizações inevitáveis, a exemplo do contrato de pessoal, por isso a movimentação sindicalista para equiparação de preços equivalentes aos praticados no eixo Rio-São Paulo é inevitável para não nos fazermos de tolos, respeitando, claro, as proporções de conhecimento e prática.
Outro ponto importante: Por que o incentivo aos filmes seria maior que os projetos incentivados localmente? Tá errado. O Curta-SE, por exemplo, não teve nem 4% dos incentivos dados às produções de fora. Ficamos sempre incentivando uma mentalidade colonialista.
Em terceiro lugar vem a falta de um edital público que fomente as produções. Já passou da hora! Cadê os realizadores adormecidos em berço esplêndido? Política se faz diariamente. O sergipano é muito acomodado, isso em outros estados dá o maior barulho. O orçamento deve ser público e de todos de fato.
JD – Pra finalizar, depois de tanto tempo em contato com a produção local, por meio das mostras realizadas pelo Curta-SE, dá pra ter esperança no audiovisual sergipano? A nossa produção evoluiu de algum modo nos últimos anos?
Rocha – Sim, evolui na mesma proporção do incentivo. É claro que o conhecimento é individual e o interesse de evoluir deva partir de cada um, mas se houver um compartilhamento geral de que o fomento deva existir com mais propriedade, isso deve crescer com mais fervor. Digo sempre que qualidade vem com quantidade. Tem que fazer muito, ler muito, trocar idéias com outras pessoas para que o crescimento seja visível. Aliás, não dá pra ser feliz sem qualidade de vida cultural.
Setembro 21, 2009
Torto
Rian Santos
Há um tropeço de tocaia
Em cada um de meus passos
Eles sabem que nasci fraco
Pedaço de pano roto governado pelo vento
De que me serve andar reto
Caminho certo, já sabido
Quando o espanto corre tonto
Idiota bêbado
Desenhando curvas
Inventando esquinas no meio da rua
Eu sou um trem descarrilhado
Inimigo dos trilhos
Passageiro clandestino no escuro do vagão
Acidente impresso na forma torta em que moldaram meus passos
No susto da cartomante que se perdeu nas linhas de minha mão
Setembro 16, 2009
Karne Krua no ‘Eu Sou do Rock’

Vinte anos de barulho, sem nenhuma nostalgia
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Quando o camarada Estranho, da Boca de Forno Produções, me enviou o release do Festival Eu Sou do Rock, que deverá reunir algumas das bandas mais virulentas da cidade na área externa do Teatro Lourival Baptista, no próximo domingo, tratei logo de botar o olho na programação. A ansiedade possuía justificativa. Talvez fosse a oportunidade necessária para registrar a história da banda mais importante de todo o cenário alternativo de Sergipe. Não me arrisco a dizer se existe justiça no mundo, mas os anjos degenerados do acaso e da distorção sorriram pra mim.
Minha intenção inicial era reunir algumas impressões a respeito da Karne Krua durante um ensaio dos caras, mas o veterano Sílvio, vocalista e fundador da banda, me explicou que eles estão num ritmo bacana de shows, de modo que o repertório já está meio azeitado, dispensando a necessidade de uma nova reunião com os músicos. Isso não nos impediu, contudo, de lorotar um bocado, enquanto o rapaz atendia à molecada que continua procurando informação na Freedom.
Durante a conversa, Sílvio me explicou que o hardcore está na base de tudo o que a Karne Krua faz desde a sua fundação, há mais de vinte anos. Isso nunca representou empecilho, entretanto, para que eles utilizassem a batida vertiginosa do gênero para imprimir uma personalidade particular em suas composições.
“O alicerce é o hardcore, mas nós sempre incorporamos outros elementos, sem nenhuma limitação. Eu não gosto dessa história de gênero, de se prender a determinados dogmas de maneira religiosa, respeitando determinadas fronteiras. É por isso que nosso público é bem heterogêneo, e aglomera tanto a molecada que está começando a ouvir rock, quanto o quarentão de cabelos brancos que nos acompanha faz tempo”.
Quando Sílvio começou a se interessar por música, nos esmaecidos anos 80 (Itabira é só um retrato na parede, mas como dói!), influenciado pelos irmãos mais velhos e por um ambiente familiar propício, a paisagem de Aracaju era muito diferente, e não convivia pacificamente com a negação dos modelos de comportamento que cultivava. Segundo Sílvio, não era raro o camburão acompanhar um grupo de cabeludos de maneira ostensiva.
“No imaginário da época, roqueiro era tudo drogado, marginal, batia em mulher. Claro que era todo mundo moleque, com dezesseis, dezessete anos, querendo mergulhar no universo dos ídolos, e a droga sempre caminhou de mãos dadas com o rock. Mas tudo depende de como o cara lida com isso. Tem gente que afunda, tem gente que sai nadando, de mansinho…”, defendeu com alguma ironia.
Foi motivado pela curiosidade despertada por esse universo, que Sílvio começou a fazer música. “Depois de ouvir os discos que meus irmãos traziam da loja onde trabalhavam, de conhecer a música sessentista, setentista, eu entendi que tinha que buscar a emoção de fazer música. Era a peça que faltava pra completar o quebra-cabeça. O rock era a nossa grande arma, a gente tinha que montar uma banda”.
Nos tempos da Sem Freio na Língua, banda que lançou as sementes para o surgimento da Karne Krua, o cenário também não era propício para a divulgação da música autoral, mas os caras pretendiam, deliberadamente, fazer história.
“Me lembro de um show em que anunciaram que o cara ia tocar com uma Fender. Foi a grande atração do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado”.
Sílvio continua. “Desde o início, quando fundei a banda com Almada, defendemos a bandeira da música autoral. Era uma coisa ideológica, de batalha mesmo. Isso também pode explicar a nossa vitalidade. Quando um menino vem me pedir conselho, tentando entender como a Karne Krua sobrevive há tanto tempo, explico que uma banda tem que estar sempre em atividade, ocupando os espaços, renovando o seu público, procurando novos desafios. O cara precisa acreditar no que está fazendo. O resto é lucro”.
Serviço:
Local: Teatro Lourival Baptista
Data: 20 de setembro (domingo)
Hora: 15 horas
Setembro 14, 2009
Balançando o rabo
Rian Santos
Cuspo as palavras
Como libertasse um cachorro
Basta um cochilo
E elas correm, desembestadas
Balançando o rabo
Animal no cio
Da língua pendente
Feito criança morta, no focinho
Baba, bafo e desatino
Setembro 9, 2009
Maria Scombona nua e crua

O instinto, o sotaque e a naturalidade de Henrique Teles registrados em novo trabalho da Maria Scombona
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Tava pior do que couro de pica. Foi preciso mais de uma semana para encontrar uma brecha na agenda da rapaziada. Os integrantes da Maria Scombona são músicos requisitados, que se desdobram em diferentes bandas para pagar as contas, e transpiram sobre os instrumentos para garantir o pão de cada dia. Na noite da última terça-feira, no entanto, Rafael Jr (bateria), Henrique Teles (vocal) e Robson Souza (baixo) conseguiram arrumar um tempinho e dispensaram duas horas de atenção a este cronista, agradecido pela oportunidade rara de fazer jornalismo de verdade.
O terceiro disco da Maria, não é novidade pra ninguém, deve ser lançado nos próximos meses. Com o título provisório de “Um nu”, o novo registro de uma das bandas mais relevantes no atual cenário da música sergipana vai contar com onze faixas que, no entendimento de Rafael Jr, perseguem uma sonoridade mais crua.
De acordo com Henrique Teles, que assina todas as canções da banda, a observação faz sentido. Ele acredita que o músico não pode ficar entronado no conformismo, governando com enfado as fronteiras delimitadas pelas próprias pegadas. “Vale a pena se surpreender. A cada novo trabalho, tomamos o cuidado necessário para não nos repetir”.
Quem conhece a discografia da Maria, sabe que a observação não é retórica. Embora conserve certa coerência, preservando alguns elementos fundamentais, os dois discos já lançados pela banda registram formações e escolhas diferentes. Se em “Grão”, o primeiro trabalho da banda, os caras atiram em várias direções – dos aboios ao blues, do coco de embolada à soul music, do forró ao jazz –, em “Mais de um nós” o contorno das canções é desenhado quase sempre pela guitarra jazzy de Saulo Ferreira (um verdadeiro monstro das seis cordas). Henrique Teles observa, contudo, que a Maria nunca foi carregada nas costas por nenhum músico em especial.
“Não vejo nada em nosso trabalho que não seja totalmente indispensável, nem qualquer elemento que se destaque mais do que outro. A Maria veio em função de meu trabalho de compositor. Como não tenho noção instrumental, no entanto, sempre fiquei muito confortável para dividir essa responsabilidade, mas a composição é maior do que tudo”.
Henrique acredita, inclusive, que essa divisão de responsabilidades deve ficar ainda mais fácil nesse último trabalho, em função do aperfeiçoamento procurado pelos músicos, alunos do curso de música oferecido pela Universidade Federal de Sergipe. “Para mim, que estou de fora, é mais fácil perceber que Rafael, por exemplo, naturalmente responsável pela parte rítmica, agora consegue dialogar com o resto da banda e entender o que eles estão propondo. O nível de diálogo cresceu muito”.
Outro mito combatido por Henrique Teles diz respeito às supostas bandeiras levantadas pela Maria. Ele explica que nunca se propôs a defender o regionalismo como o caminho mais viável para a música sergipana, ainda que combinado a elementos universais. Dono de um sotaque carregado, o compositor entende que o seu processo de composição é natural e intuitivo, e que se, por vezes, a Maria percorre os caminhos áridos da música nordestina, isso ocorre sem nenhuma preocupação, além da música.
“O que eu defendo é não ter vergonha de ser como sou, de falar como realmente falo. Não sabemos quem somos, não nos reconhecemos. A destruição de nossa cultura é a destruição de nossa auto-estima. Essa história é muito característica de Aracaju. É nosso perfil de importador, que reflete uma cultura de povo colonizado. Na minha escola, era proibido falar ‘oitcho’, diziam que era errado. Errado um cacete!”.
Henrique Teles continua, encerrando a questão e a entrevista com a elegância costumeira. “Uma das coisas que mais me agradam no nosso trabalho é que a gente conseguiu fugir da caricatura. Não nos vemos obrigados a usar um tambor, se ele não for necessário, nem a falar ‘cabrunco’ se isso não for indispensável ao que a gente está propondo. O local está presente somente quando é necessário, e o bom é que todo mundo percebe isso”.
Setembro 6, 2009
Os calos do artista

O trabalho de Fábio Sampaio parando o trânsito, literalmente
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
“Se eu soubesse o que é arte, não diria a ninguém”. A citação foi feita por Anderson Camilo, durante a birita que rolou depois da intervenção mais recente do artista plástico Fábio Sampaio. O convite chegou por e-mail, intimando este escriba, entre outros amigos do rapaz, a emprestar o corpinho asqueroso, moldado nas bodegas mais suspeitas da cidade, a uma causa nobre como nunca seremos. Para mim, além disso, foi uma oportunidade inestimável de falar besteira e dar risada com alguns dos maiores personagens de nossa arte contemporânea.
Fábio acreditava que Conelizados seria somente mais uma intervenção do Projeto “Interacidade”, que vem sendo desenvolvido desde o distante 2001, e deverá ilustrar um catálogo com o conjunto de sua obra nos próximos meses. Mas o fato é que o artista acabou reafirmando uma visão particular, que vem caracterizando o seu trabalho.
Além de mobilizar uma dúzia de malucos, que no último sábado deram as mãos e interromperam o trânsito nas duas pistas da avenida que dá acesso ao Shopping Jardins, chamando atenção dos transeuntes para a importância do respeito à faixa de pedestres, o artista reiterou a crença na função social que, ao que parece, está atrelada à maneira como ele enxerga o papel do artista.
“A intervenção tem a função de alertar as pessoas, de uma forma divertida e participativa, a respeito do crescimento do fluxo de carros na cidade, e a necessidade de um trânsito mais seguro para motoristas e pedestres”.
Corta para o boteco. Quando Camilo encheu a boca de Picasso, na tentativa frustrada de interromper as gargalhadas de Marcos Vieira e João Valdênio, queria desviar o rumo da conversa, que versava sobre o insólito aparecimento de um calo em seu cu. Sem querer, no entanto, ele deu um norte à presente matéria (vou me atrever a chamá-la assim). Fábio Sampaio pode não saber exatamente como definir essa coisa vaga que chamamos de arte, mas já consegue vislumbrar no ofício algum sentido.