Spleen e charutos

Outubro 13, 2009

‘Pague pra Ver’ no Espaço Cultural Yázigi

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 4:04 pm
Amálgama pop pra o público sergipano ver

Amálgama pop pra o público sergipano ver

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Eu boto fé no trabalho de Fábio Sampaio. Se tivesse meios, até pagaria pra ver. Felizmente, o artista possui um círculo de admiradores extenso, que abriga de jornalistas esfomeados a profissionais de estirpe mais nobre, e não depende dos parcos trocados deste escriba para se manter. Pelo menos é o que demonstra a individual que o rapaz inaugura depois de amanhã, na galeria do Espaço Cultural Yázigi.

Depois de abusar de minha boa vontade, a manhã passada, e se aproveitar de minha presença no desembarque das vinte e duas telas que tomarão parte na exposição, Fábio Sampaio me explicou que a idéia surgiu durante um passeio pela capital paulista. Segundo ele, entre tantas linguagens e suportes, lá a pintura continua “fervendo”, o que o incentivou a se recolher para se dedicar às telas durante mais de um mês, no atelier que divide com Antônio da Cruz, no Conjunto Parque dos Coqueiros. Uma decisão inusitada, contudo, chama atenção. “Decidi que só montaria a exposição quando tivesse vendido tudo”.

Além da vocação capitalista, sem a qual ninguém se mantém em pé, a iniciativa aponta para o que o artista chamou de educação do público consumidor de arte. Fábio explica que, ao contrário do que muita gente pensa, um trabalho autêntico não pode preencher uma função decorativa, nem pode ser produzido levando em consideração a cor do estofado de seu pretenso comprador. De outra maneira, ele revela que continuaria se dedicando a outros projetos – a exemplo das intervenções urbanas que vêm interferindo na paisagem de Aracaju – e alimentaria o ostracismo que o manteve afastado durante quase dez anos da pintura propriamente dita.

“Você só consegue uma produção bacana, que aponta para algo, se internando no atelier. Eu fiquei mais de um mês, à base de muito Plástico Lunar e Arctic Monkeys, me dedicando exclusivamente a esse projeto. A experiência foi muito boa, deu uma higienizada no cérebro”.

Fábio diz que não pretende parar de pintar, e confidenciou que as telas que conhecerão seus compradores por meio de um sorteio realizado na vernissage são produto de tudo o que acumulou ao longo de mais de vinte anos de aprendizagem visual. Vídeo Clip, HQ, artesanato e a linguagem da propaganda fazem parte do amálgama pop que o público sergipano poderá conferir na exposição “Pague pra Ver”.

Outubro 8, 2009

Sem hora marcada

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 4:48 pm

Rian Santos

Saudade do cronista, quando a notícia não passava de desculpa esfarrapada, um artifício sem vergonha para ludibriar meu editor. Impérios caíssem, suicidas covardes implorassem ajuda do alto dos edifícios. De minha janela, o rio me dizia que a vida não consulta o relógio. Por mim, o coitado encontraria o chão.

Nem onde, nem quando, nem como, nem por quê. Nenhuma hora, nenhuma data marcada. Somente a melodia das palavras, fiapo sem força, incapaz de me atar à realidade, bordado paciente que ocupava as tardes de minha mãe.

A leitura de suas mãos perdidas em linhas coloridas era mais rica e mais bonita do que o preto e branco do jornal. O mergulho da agulha na malha macia do algodão espetando as rugas de minha avó, o perfume do cigarro que minha bisa fumava sem parar, a voz apagada de gente que eu nunca conheci, embora os traga na feição.

Nada de greves, atentados, bombas, explosões. Que se foda todo mundo. Hoje é feriado, tenho um monte de lorota pra contar.

Meu querido viciado em crack

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 2:34 pm

Quando redigi a crônica reproduzida abaixo, tinha em mente a luta encampada pelo Sintese. Na ocasião, fui provocado pela condenação da imprensa, que insistia na politização da campanha pelo efetivo pagamento pelo Piso. Infelizmente, como demonstra o protesto realizado ontem pelo Sindipema, o texto continua oportuno.

******
Os desejos paridos não caminham sozinhos. Carecem de bússola, setas e mapas, um guia treinado e o tempo estio. Existem sementes agrestes, que resistem a quase tudo. Mas os sonhos são feitos de matéria diversa. Dois dedos a menos de água, um pouco mais de estrume, e as noites perdidas em fecundação desvairada redundam em criança natimorta, um bote perdido no meio do mar bravio.

Tenho um amigo, professor do Estado, que ingressou na Universidade Federal de Sergipe determinado a virar gente. Depois de muita penúria e alguma beberagem, Derley concluiu a graduação. Quase sem roupa, sem calçado e sem emprego, meu amigo viajou pra Curitiba com apenas dois putos no bolso. Uma dissertação de título pomposo lhe conferiu o mestrado, mas dois anos de fome não lhe renderam mais que isso – o coração dividido entre duas cidades, e um pedaço de papel superestimado.

Desde que o presidente Luis Inácio sancionou a lei que determina o pagamento do piso nacional de R$ 950 para os professores da Rede Pública, os profissionais da educação guardam no ventre uma esperança venenosa. Aqui em Sergipe, por exemplo, a Secretaria da Educação gritou aos quatro ventos que obedecerá rigorosamente à determinação legal. Ao mesmo tempo se recusa, no entanto, a por termo nas dúvidas que assombram a categoria. Afinal de contas, como será realizado o pagamento do piso? A regência de classe será afetada? Como fica o plano de carreira do magistério? Essas, entre outras perguntas, continuam aguardando resposta.

Versado no tratado da natureza humana de Hume, meu amigo teme que os seus sonhos dobrem alguma esquina perigosa. O sono interrompido por pesadelos de casa vazia, as panelas e cuecas trocadas por uma pedra pequena de crack. A vontade secando, esquálida, famélica. O dinheiro pouco trancado à chave. O que deu nesse menino, que agora anda assim esfarrapado? Dizem que vagava perdido, sem mão amiga ou endereço, órfão de pai zeloso que lhe mostrasse a direção.

Outubro 6, 2009

‘Chocolate With Pepper’ no Cook

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 5:29 pm

Além de tocar muito, o camarada Julico (The Baggios) vem se revelando um verdadeiro embaixador da música sergipana. Sempre na estrada, levando a música da terrinha para além das nossas fronteiras, o Rei do Blues – como preferem os amigos mais chegados – não se furta a convidar a galera que conhece em suas andanças pra levar um som aqui em nossa casa. É o que vai ocorrer no próximo sábado, quando o palco do Capitão Cook recebe a banda Distro (RN). Além da galera de Natal, o Cook abriga ainda os anfitriões da The Baggios, e a banda Nautilus.

O Power Pop da Distro aterrissa no Capitão Cook

O Power Pop da Distro aterrissa no Capitão Cook

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Jornal do Dia – Antes de mais nada, seria interessante esclarecer como ocorreu essa aproximação da Distro com Aracaju. Quando surgiu a oportunidade necessária para fazer zuada por aqui? Você me falou que já conhecia o som da Snooze, né?

Rafaum Costa – Eu conheci a Snooze em 2005, numa festa da Solaris Discos, aqui de Natal, e toquei com eles no ano seguinte, no Festival Dosol. A Snooze é uma banda muito competente, que adicionei e favoritei no myspace.
No início desse ano, o Nautilus veio tocar aqui, junto com o Gigante Animal (SP). Os caras fizeram um ótimo show. Conversamos bastante e já de cara nasceu a vontade de fazer o intercâmbio acontecer. Mais recentemente, rolou a tour “Invasão Sergipana”, quando tocamos com o The Baggios, Elisa e Daysleepers. Apesar do público pequeno, os shows foram muito consistentes. Eu troquei muitas idéias com a galera sergipana, surgiu o convite, e estamos chegando aí nesse dia 10.

JD – Influenciado por algumas bandas gringas, e nomes locais influenciadas por gringos, vocês começaram a compor em inglês. A galera está curtindo? Alguém já cuspiu o discurso besta do ufanismo na cara de vocês?

Rafaum – Risos. Sempre tem o cara que vai dizer que prefere em português e que rock brasileiro é cantado em língua pátria, mas acho isso meio radical, vai da opção da banda mesmo. Nós optamos por experimentar algumas composições em inglês. No EP “Chocolate With Pepper”, fomos motivados pela curiosidade de saber como iríamos soar na língua do Tio Sam. Os resultados estão sendo os melhores possíveis. Tocamos em Recife, João Pessoa e estamos indo a Aracaju com esse trabalho. Depois de visitar o máximo de cidades nordestinas com esse EP, queremos correr o Sudeste.

JD – Você pode me corrigir se eu estiver enganado, mas tenho a impressão de que a cena de Natal é muito parecida com a sergipana, no sentido de que estão acontecendo coisas muito bacanas – com as abanda gravando trabalhos interessantes, lançando discos, coisa e tal – mas que acabam minguando por falta de repercussão. Em sua opinião, a cena pode crescer à revelia dos meios de comunicação? Como amadurecer essa relação?

Rafaum – Sim, sim… Natal e Sergipe se assemelham muito nesse aspecto. Acho que, esses últimos anos, os potiguares ficaram meio “putos”, cansaram de reclamar. Estamos empenhados, tentando sair de casa pra mostrar o que temos por aqui. Éramos muito acomodados e estamos aprendendo que se a banda não está disposta a se divulgar, vai ficar muito difícil dela ser reconhecida.
É muito fácil ter uma banda hoje. A galera grava em casa, coloca as músicas no myspace e acha que tem uma banda. Ter uma banda é mais do que isso. As pessoas devem ter cuidado, ter uma gravação massa, procurar uma certa identidade visual, fazer o melhor possível para que o maior número de pessoas possa encarar o seu rock com seriedade, e as mídias estão aí pra isso. Se for feito de forma organizada, fica menos difícil de conseguir alguns espaços, expandindo a sua música cada vez mais.

JD – E como foi que nasceu a experiência do Coletivo Noize? O coletivo realmente contribuiu de alguma maneira na caminhada da banda? O que é preciso para um coletivo funcionar de verdade?

Rafaum – O Noize surgiu da idéia de otimizar algumas ações culturais na cidade. Eu sou um dos proprietários do Selo Independente Xubba Musik, e junto a Gustavo Rocha, da banda Calistoga, tivemos a idéia de abraçar um número maior de ações culturais, envolvendo desde cinema e música até as feiras livres, exposições fotográficas, artes plásticas, cultura independente de uma maneira geral.
O Noize vem rendendo algumas coisas pro Distro, principalmente contatos, pois estamos ligados à rede de 37 coletivos espalhados pelo país, por meio do Fora do Eixo, que está montando um “circuito”, criando as condições necessárias para que as bandas circulem cada vez mais.
Vamos fazer um ano de coletivo e vimos que, para funcionar, não adianta apenas o cara “ser” do coletivo, senão vira só um amontoado de gente que não produz. Por isso, no início sempre ocorrem várias mudanças, entra e sai de gente, mas acredito que chegamos em um núcleo consistente e estamos conseguindo bons resultados, trazendo benefícios pra quem faz de verdade. Portanto, o caminho é esse.

JD – Quais os nomes da cena de Natal que merecem atenção da galera que curte um som como o de vocês? O que falta para essas bandas conquistarem o mundo?

Rafaum – Bicho, tem muitas bandas trampando bastante por aqui, mas eu destaco o Calistoga, Rejects, The Automatics, Os Bonnies, Bugs, Venice Under Water, que estão produzindo bastante na terrinha do camarão bom, e que já fizeram tour ou estão articulando ações fora da cidade. “Dominar o mundo” está nos planos, mas pra isso vamos dominando o nosso Nordeste querido, nosso país, e por aí vai, pois a fórmula pra se conseguir bons frutos é apenas trabalho, trabalho, trabalho e muito show, para que a banda amadureça cada vez mais e consiga alcançar os seus objetivos.

Outubro 1, 2009

‘Os desembargadores só enxergam a letra fria da lei’

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:00 pm

A Agência Voz começa a publicar, a partir de hoje, uma grande entrevista com Rubens Marques, presidente da CUT em Sergipe, pautada pelas demandas dos movimentos sociais. Nessa primeira oportunidade, o sindicalista contextualiza a criminalização do setor e discute as relações com a esquerda aboletada no poder

Setembro 29, 2009

Tava preparando a hora de voltar

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 3:25 pm

Pra quem tava com saudade da prosa rasteira do Calango…

Agência Voz

Setembro 24, 2009

Música de preto no Capitão Cook

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:18 pm
Ferraro Trio: Um exercício que vale a pena

Ferraro Trio: Um exercício que vale a pena

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Os grooves do funk e da soul music conjugados à energia visceral do blues. São esses os poucos ingredientes que o pessoal do Ferraro Trio e da banda Máquina Blues prometem jogar no caldeirão sonoro que tomará conta do Capitão Cook na noite de amanhã. De acordo com Rafael Jr, baterista do Ferraro e um dos militantes mais ativos da cena local, não poderia haver palco mais adequado para o trabalho da banda. “Antes de fazermos o primeiro show já achávamos que era o lugar perfeito pra nós”. Como determina o hábito que adotei nessas ocasiões, a apresentação serviu de pretexto pra um lero com os caras. Afinal, Não é todo dia que duas bandas sergipanas se dedicam à música negra com tanta qualidade.

Jornal do Dia – Como surgiu a idéia de montar uma banda instrumental? Viver de música já não era complicado o suficiente pra vocês? Em que medida isso possui relação com o curso de Música que o pessoal do Ferraro Trio cursa na UFS?

Rafael Jr – Bom, a gente já tinha entrosamento de outros carnavais, tanto musical quanto pessoal, principalmente na Maria Scombona. O projeto instrumental serviu para coroar isso tudo. Nossa amizade é cada vez mais forte e acho também que estamos mais maduros musicalmente, podendo levar isso para o som do trio. A questão de viver de música não influencia. Aqui a música está em primeiro lugar, e se ela não der retorno, tudo bem, é um exercício que vale a pena. O curso de Música na UFS também tem a ver, estamos caminhando para o término da graduação e certamente somos músicos melhores depois desses anos seguindo ensinamentos de Mestres e Doutores em Música. Nossa visão do fazer musical alcança uma abrangência maior e melhor.

JD – No release que registra as intenções do projeto, vocês mencionam a ambição de atingir um público variado, “de jazzistas a rockers, além dos amantes da música negra em geral”. A pretensão foi atingida? O que falar do público consumidor de música em Aracaju?

Rafael Jr – A questão é que muitas vezes a música instrumental pode ser bastante chata para leigos, pra quem não é instrumentista, com solos intermináveis e músicas longas e/ou pouco acessíveis em sua forma ou sonoridade. A idéia é que tanto os caras mais “fissurados” em música quanto suas namoradas possam curtir o som, e pra isso não é preciso fazer uma música descartável ou pensando nas FMs. O balanço da música negra americana serve como base e linha condutora, pra gente ter uma cara, mas estamos abertos à música brasileira, ao jazz e ao rock. Tudo isso faz parte do nosso background musical e acho que tá tudo bem dosado no nosso som.
Sobre o público consumidor em Aracaju, acho que sempre tem gente interessada e aberta, estamos aí pra tocar pra eles. O objetivo será atingido com o tempo, estamos trabalhando sério pra isso. E que venham cada vez mais jovens e coroas pros nossos shows.

JD – Em uma matéria recente, eu me atrevi a dizer que o batizado da faixa Capitão Cook, uma das composições do trio, rendia homenagem a um dos poucos espaços abertos para a divulgação da música autoral da cidade. O atrevimento possui algum fundamento? O Capitão Cook deve mesmo ser encarado como templo informal da música produzida em Aracaju?

Rafael Jr – Acho que é isso mesmo. Antes de fazermos o primeiro show já achávamos que era o lugar perfeito pra nós, e é sempre bem legal tocar lá. A partir dessas primeiras investidas no “templo” já fechamos apresentações em outros locais, como na UFS ou no Projeto Freguesia, da Funcaju. Foi bem legal o show que fizemos na orla, um sábado à noite, cedo, de graça. Tinha muita criança, turista, famílias comendo tapioca… Isso não tem numa casa noturna!

JD – Parece que a idéia que possibilitou a fundação do Ferraro Trio é bem antiga. Porque ela demorou tanto tempo para ser posta em prática?

Rafael Jr – Não é tão antiga, mas cozinhou no mínimo durante um ano inteiro! Saulinho já fazia música instrumental com mais freqüência em outros grupos; Robson não vinha tocando muito jazz e eu também tava parado desde o fim da Poyesis/Jazz Café, na qual tocava quase toda terça. Fica uma lacuna pra quem ama jazz, que é nosso caso. Gosto muito de música pop, mas tem hora que enche o saco! Fazer diversos trabalhos diferentes nos mantém vivos musicalmente, informados, socializados com o “metiê”, e em dia com nossos instrumentos, algo necessário para operários da música como a gente. A demora foi organizar agenda mesmo, conciliar com as disciplinas da UFS, etc. Mas quando foi, foi de vez!

JD – Quem baixou o EP virtual de vocês, tá ligado na “homenagem” personalista realizada para Michael Jackson. Ela foi gravada antes ou depois da morte do crioulo mais branco do mundo (ou do branquelo mais preto que já existiu, sei lá…)? Vocês realmente curtem o som do cara?

Rafael Jr – “Beat It” foi gravada antes da morte, várias pessoas já tinham curtido e comentaram que estávamos em sintonia. Já a versão de “Bad”, que não está no EP mas tem no www.myspace.com.br/ferrarotrio, foi gravada depois. Fizemos um show no Cook no aniversário de um mês da morte e tocamos essas duas e ainda um medley de canções da fase Jackson 5/Motown, que particularmente eu prefiro.
O maior fã na banda é Robson Macaxeira, curte desde moleque! Conheci melhor os álbuns solos através dele, que também me fez respeitar o trampo do cabra. Grandes arranjadores, produtores e músicos tocavam em seus álbuns.

JD – E o que a galera pode esperar do show de amanhã à noite? Alguma surpresa? Porquê a Máquina Blues como convidada?

Rafael Jr – Na verdade, foram eles que nos convidaram. As duas bandas curtem o trabalho uma da outra e já era desejo dividirmos o palco. Funk, Jazz e Blues têm tudo a ver! Música de negão, né véio? A cada show trazemos um convidado diferente, e nesse especificamente teremos metais em algumas músicas e uma jam com o guitarrista da Máquina Blues no fim do show, celebrando o som de Jimi Hendrix, uma influência decisiva pra qualquer guitarrista.

Setembro 23, 2009

O amor insistente de Cleomar Brandi

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 6:28 pm
Mulheres famintas, picuinhas cotidianas, e o respeito à palavra no primeiro livro de Cleomar Brandi

Mulheres famintas, picuinhas cotidianas, e o respeito à palavra no primeiro livro de Cleomar Brandi

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Um escriba envergonhado assina essa entrevista. Cleomar Brandi, uma das figuras mais queridas do jornalismo sergipano, o melhor copo da cidade, se dispõe a falar do nascimento de seu primeiro filho, e o irresponsável diante de vossos olhos se limita e enviar meia dúzia de perguntas para o e-mail do cronista, negligenciando o conhaque e as literatices indispensáveis à ocasião. O leitor, no entanto, pode ficar despreocupado, e encarar a leitura sem receio. Autor e personagem, dono de um texto seguro, Cleomar contornou a situação do mesmo jeito que leva a vida: Na flauta, abrindo uma janela para a poesia que seu coração abriga, sonhando alto ao mesmo tempo em que observa as miudezas cotidianas do chão.
Antes que digam por aí que isso não é jornalismo, convém lembrar. “Os segredos da Loba” será lançado amanhã, a partir das 18 horas, na sede da Sociedade Semear.

Jornal do Dia – Pelo que entendi, a partir das matérias publicadas em função do lançamento de seu primeiro livro, a paixão pelo universo feminino e pelas palavras são o grande Leit Motiv, não apenas de sua pena, mas também de sua existência. Depois de tanto tempo em contato com esse bicho arisco (nos dois casos), ficou mais fácil lidar com ele?

Cleomar Brandi – Na verdade, são dois belos desafios: a palavra e o universo feminino. Os dois são cheios de filigranas, sendas, trilhas, bifurcações (?). A palavra é inquieta, cheia de esquinas, dança capoeira. A figura feminina tanto dança um frevo como um bolero, cheia de interrogações, tem fome de minotauro. E a gente gosta de tentar decifrar isso, apenas como um amador insistente.

JD - Não sei se você concorda comigo, mas sinto falta do cuidado com a palavra no trato diário do jornalismo que se faz hoje em dia. Ao longo dos anos, Sergipe revelou grandes craques do jornalismo que demosntraram, todos eles (a gente pode citar Joel Silveira, o poeta Amaral, Luciano Correia, Fernado Sávio, entre inúmeros outros) um respeito muito especial no manejo de sua maior ferramenta de trabalho. Será que isso explica a ausência da crônica em nossos periódicos?

Brandi – Realmente, essa coisa do trato com a palavra é um problema muito sério. Acredito que a raiz de tudo está na leitura de bons livros. Minha geração, por exemplo, acostumou-se a ler de Flaubert a Machado de Assis, de Tchecov a Drummond. Isso ajudou a formar uma geração de bons cronistas, como Rubem Braga e muitos outros. Hoje, se você perguntar a muitos que fazem jornalismo se já leram Rubem Fonseca, talvez nem saibam quem é. É por isso que dizem que os cronistas estão morrendo. Mas eles estão vivos.

JD – Como foi selecionar apenas 71 crônicas num universo tão vasto como o de seus escritos (falam em mais de 700 crônicas no escuro da gaveta)? Qual a importância da publicação? Dado o desprezo corrente em relação à leitura (mesmo entre colegas jornalistas) você não teme acabar alimentando as traças dos sebos?

Brandi – Não me preocupo muito com relação às gordas traças dos sebos. E quanto ao esquecimento da leitura constante, que está se tornando quase um hábito das pessoas, isso me faz ficar pesaroso com quem não quer conhecer o mistério e a cumplicidade de um bom livro. Quando você se acostuma fazer da escrita diária e da leitura constante amigas do dia a dia, percebe que o grande segredo do mundo é a palavra chamada “conhecimento”. Pra mim, a maior riqueza da minha vida.

JD- Vou tomar a liberdade de fazer mais uma provocação. Quando comecei a publicar meus garranchos aqui no Jornal do Dia, tomei para mim que escrever significava perder amigos. Você, por outro lado, é uma pessoa muito querida. Como equilibrar a virulência, por vezes necessária, de um texto, sem agredir as pessoas eventualmente envolvidas, ou mesmo o leitor?

Brandi – Tem um ditado antigo que diz que “o pau que dá em Chico também dá em
Francisco”. Eu nunca me preocupei muito com ferir essa ou aquela pessoa com minhas opiniões. Ora, se um cara é corrupto, eu tenho que chamá-lo de safado. E chamo. Por essas coisas já criei algumas arestas, mas dá pra continuar mantendo a linha e a dignidade. Afinal, quando você escreve uma crônica num jornal e assina, qualquer processo que role é você que vai responder e não a empresa na qual você trabalha. Por isso gosto de assinar tudo que escrevo.

JD – Em entrevista ao Jornal da Cidade, você afirmou que o seu trabalho depende da realidade, deve muito à labuta no jornalismo. Isso possibilitaria ao leitor mais perspicaz identificar o momento em que o texto teria nascido. A crônica também pode ser entendida como uma fotografia?

Brandi – A crônica é mais que a fotografia. Ela é também a revelação da palavra escrita. Essa coisa de ter os olhos multifacetados faz você enxergar detalhes que podem passar despercebidos a muita gente. Acho gostoso ficar ligado em tudo. É o meu natural. Às vezes, quieto, numa mesa de bar, alguém pode pensar que estou meditando e na verdade estou é ligado em alguma coisa que está acontecendo ao meu redor.

Setembro 22, 2009

Rosângela Rocha e os perrengues do Curta-SE

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 7:34 pm
Rosângela Rocha, diretora executiva da Casa Curta-SE

Rosângela Rocha, diretora executiva da Casa Curta-SE

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Quase não saía do papel. Parece que se dependesse do financiamento local, o único festival de cinema do Estado – um dos eventos mais importantes do calendário cultural de Sergipe – teria nadado durante dez anos pra acabar morrendo na praia. A Petrobras, no entanto, abençoou a iniciativa e, semana que vem (de 29 de setembro a 03 de outubro), depois de ter sido adiado duas vezes, o Curta-SE 9 finalmente tomará conta do Cinemark Jardins.
Esperto como a gota, este escrevinhador de palavras rasteiras aproveitou a oportunidade para trocar uma idéia com a diretora executiva da Casa Curta-SE, responsável pelo festival, e fazer algumas provocações. Rosângela Rocha não se esquivou, e o resultado pode ser conferido pelo leitor logo abaixo.

Jornal do Dia – Em quase uma década de atividade, qual a maior contribuição do Curta-SE para o amadurecimento da reflexão a respeito do audiovisual em Sergipe? Qual a importância dessa reflexão?

Rosângela Rocha – Sem modéstia alguma, classificaria o cenário local em antes e depois do Curta-SE. Primeiro, pela reinserção de Sergipe no cenário nacional, incentivo à produção anual, fomentação das reflexões sobre questões antigas e contemporâneas do cinema e audiovisual brasileiro e mundial. Segundo por provocar a construção de uma política pública para o setor, ainda inexistente em Sergipe. Acreditamos que isso vá acontecer quando os realizadores se conscientizarem da importância de sua inserção no desenvolvimento de nossa cultura local, enquanto ser humano e enquanto mobilização de uma indústria criativa, formada com a participação e expressão de sua inventividade, movimentando a cadeia produtiva e o cenário econômico do setor.

JD – Ao longo desses anos, o festival passou por diversas transformações (inclusive de nomenclatura). Essas transformações podem ser entendidas como reflexos da importância adquirida pelo Curta-SE? Em que medida elas foram necessárias?

Rocha – Aprendemos com o Curta-SE a cada ano. Isso é provocado também pela movimentação do cenário do audiovisual, pelo que vamos observando, participando do cenário político do cinema e audiovisual brasileiro. Por isso, estamos sujeitos às mudanças.

JD – Conversando com alguns profissionais ligados ao maio audiovisual em Sergipe, percebi que, embora todos reconheçam a necessidade de eventos como o Curta-SE, algumas pessoas gostariam que o festival, através da Casa Curta-SE, fosse responsável por uma atividade mais continuada, que interferisse em nosso meio cultural durante todo o ano. Em sua avaliação, a crítica possui algum fundamento? Existem planos para ampliar a atuação da Casa Curta-SE?

Rocha – Embora comunguemos desse desejo, o cenário ainda não é propício porque não temos uma política pública que favoreça a continuidade de nossas ações. Toda atividade demanda de planejamento financeiro, e isso não é tão simples em se tratando de investimentos em projetos culturais em Sergipe. Como você sabe, a Lei de Incentivo à Cultura do Município não está em atividade. Também não temos o Fundo Estadual em atividade, e o incentivo privado é quase inexistente, salvo para as atividades de mega shows pagodísticos, de forró e etc… Então, fazer o Curta-SE, captar recursos para o Curta-SE já é muito difícil. Aliás, só conseguimos fazer o Curta-SE porque conseguimos nos classificar no edital da Petrobras, porque o incentivo local é difícil e quase insuficiente. Então, se mal conseguimos realizar o Curta-SE, como prever outras atividades com continuidade sem incentivo?
Mas, para aliviar um pouco nossos conterrâneos, divulgamos aqui que depois de percorrer todas as instâncias burocráticas do convênio com o Ministério da Cultura, aprovamos nosso Projeto Avenida Brasil no edital de Pontões, e teremos em breve a sua implantação, com oficinas exibições e co-produção de conteúdos para TV, o que poderá dar uma nova energia ao nosso cenário.

JD – Muitos criticam também os altos investimentos realizados recentemente pela administração pública em produções nacionais rodadas em Sergipe. De acordo com as críticas (com as quais este escriba comunga), o volume do investimento não estaria a altura dos resultados alcançados em nenhuma esfera (a estética, inclusive). Como você, na qualidade de diretora executiva do único festival de cinema realizado em Sergipe (uma militante do meio, portanto), acompanha a polêmica?

Rocha – Em parte comungo com as críticas. Ressalto que trazer produções para serem filmadas em Sergipe é importante, mas tem que ter algumas sistematizações inevitáveis, a exemplo do contrato de pessoal, por isso a movimentação sindicalista para equiparação de preços equivalentes aos praticados no eixo Rio-São Paulo é inevitável para não nos fazermos de tolos, respeitando, claro, as proporções de conhecimento e prática.
Outro ponto importante: Por que o incentivo aos filmes seria maior que os projetos incentivados localmente? Tá errado. O Curta-SE, por exemplo, não teve nem 4% dos incentivos dados às produções de fora. Ficamos sempre incentivando uma mentalidade colonialista.
Em terceiro lugar vem a falta de um edital público que fomente as produções. Já passou da hora! Cadê os realizadores adormecidos em berço esplêndido? Política se faz diariamente. O sergipano é muito acomodado, isso em outros estados dá o maior barulho. O orçamento deve ser público e de todos de fato.

JD – Pra finalizar, depois de tanto tempo em contato com a produção local, por meio das mostras realizadas pelo Curta-SE, dá pra ter esperança no audiovisual sergipano? A nossa produção evoluiu de algum modo nos últimos anos?

Rocha – Sim, evolui na mesma proporção do incentivo. É claro que o conhecimento é individual e o interesse de evoluir deva partir de cada um, mas se houver um compartilhamento geral de que o fomento deva existir com mais propriedade, isso deve crescer com mais fervor. Digo sempre que qualidade vem com quantidade. Tem que fazer muito, ler muito, trocar idéias com outras pessoas para que o crescimento seja visível. Aliás, não dá pra ser feliz sem qualidade de vida cultural.

Setembro 21, 2009

Torto

Arquivado em: Spleen — spleencharutos @ 11:45 am

Rian Santos

Há um tropeço de tocaia
Em cada um de meus passos
Eles sabem que nasci fraco
Pedaço de pano roto governado pelo vento
De que me serve andar reto
Caminho certo, já sabido
Quando o espanto corre tonto
Idiota bêbado
Desenhando curvas
Inventando esquinas no meio da rua
Eu sou um trem descarrilhado
Inimigo dos trilhos
Passageiro clandestino no escuro do vagão
Acidente impresso na forma torta em que moldaram meus passos
No susto da cartomante que se perdeu nas linhas de minha mão

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