Rian Santos
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Eu agora ando com fome. O dia inteiro repetindo os mesmos gestos de autômato, ouvidos escravizados pelo mesmo disco arranhado. Se o deus que devasta também cura, como afiança o rebento mais recente de Lucas Santtana, o pé d’água que caiu aqui em casa, dez canções arrasadoras, vai levar o que tiver de levar e lavar o resto.
A cidade não parou – Não dá pra se deter sobre o que canta Lucas Santtana e permanecer indiferente. Quando vale a pena, a poesia tem o impacto de uma verdadeira experiência. Estranhamente, do lado de lá da janela, a Praça Camerino continua a mesma. As pedras portuguesas amontoadas aos pés das árvores podem sugerir a proximidade de uma guerra civil, mas o azul inclemente do céu de Aracaju, a buzina dos carros, a corrida das pessoas na rua é categórica. Choveu aqui dentro, lá fora o sol castiga. É a vida.
A fúria de certo deus pode ter poupado a geografia da cidade, mas não teve piedade de minhas gavetas. A sucessão das faixas inunda tudo, desenterra cadáveres, espalha papéis e recita garranchos esquecidos no fundo conveniente do nunca mais.
Como o próprio compositor confessa em diversas entrevistas, a faixa de abertura, que empresta o nome ao disco, resume a empreitada; O espírito colaborativo das participações especiais, as orquestrações (orgânicas ou sampleadas), a esperteza casuística e sincera da poesia, tudo temperado com balanço e mansidão, sempre na dose certa.
A malandragem da moçada que auxilia Lucas Santtana e executa as canções do disco é tão grande que o arranjo de metais de uma música foi suficiente para convertê-la em uma peça instrumental. A turma do Guizado (assim como a Orkestra Rumpilezz, que dá as caras em outro momento) manda muito bem e empresta a força dos pulmões para impelir nosso passo.
É a velha história: Diga-me com quem andas e te direi quem és. Pois Lucas Santtana anda muito bem acompanhado. Céu, Curumin, Kassin, Gui Amabis, Rica Amabis, e integrantes do Hurtmold, Bixiga 70 e Do Amor. Pode chover canivetes. Tem como desesperar?

Escutei poucas vezes e as melodias já ficaram martelando o tempo inteiro. Tá com cara de disco que ouvirei por longos períodos.
Passou da hora de ver uma turnê do cara por aqui. Torçamos.
Abraço.
Comentário por Manoel Henrique Jr. — março 2, 2012 @ 2:20 am
Caro escriba, não tenha dúvida: esse foi um dos seus melhores textos para o ‘Spleen&charutos’. Muito bom! Parabéns!
Comentário por André Teixeira — março 2, 2012 @ 11:33 am
valeu pelo link, tão falando desse disco por ai mas não tinha cruzado com ele ainda
Comentário por Leonardo Bandeira — março 13, 2012 @ 2:11 pm