Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Sensação estranha, portanto, esse aborrecimento dos ouvidos. Se ao menos os responsáveis pela programação do Projeto Verão tivessem ameaçado alguns passos além da obviedade cafona e repetitiva que dedica o principal palco do evento aos zumbis de uma indústria decadente, ignorando a revolução musical que ocorre sob as próprias barbas, restaria esperança de remédio. No lugar dos artistas a quem pode ser atribuída a renovação da tradição musical brasileira, entretanto, somos constrangidos a nos contentar com a chatice noveleira de Seu Jorge, Falcão e Charlie Brown Jr. Dá até pra imaginar a turma da Funcaju desafiando os menos distraídos:
– E durma com um barulho desses!
Meu papagaio – Pior é quando os protestos pelo efetivo fomento da produção musical sergipana são deliberadamente confundidos com um elogio ao ufanismo. Reivindicar o palco principal do Projeto Verão para os meninos da Baggios, por exemplo, é muito diferente de afirmar que meu papagaio tem as asas douradas. O duo de São Cristóvão não merece a atenção do público por causa de um recorte de origem, mas em função do trabalho destacado pelos principais veículos especializados em música do país. Não pretendemos cota, mas o talento dos nossos reconhecido. Simples assim.
O que se observa na programação do Projeto Verão (confira abaixo, por sua conta e risco), contudo, é uma disparidade escandalosa entre o alegado compromisso com nossos artistas e a altura do palco a eles dispensado. As poucas atrações relevantes do evento, as exceções que dialogam com os acordes, dubs e beats que assustaram a poeira adormecida sobre a nossa música, foram contidas numa espécie de curral, obrigadas a uma convivência insalubre, bem longe da multidão que promete invadir a Atalaia. Triste, mas é assim.
Foto: Snapic
Confira a programação, por sua conta e risco:
Palco principal (a partir das 22 horas)
09 de fevereiro
Monobloco
Revelação
Naurêa
10 de fevereiro
Seu Jorge
Charlie Brown Jr.
Alapada
11 de fevereiro
Manu Chao
O Rappa
Reação
Palco Multicultural (a partir das 20 horas)
09 de fevereiro
DJ Preto JB
Elvis Boamorte e os Boavidas
Samba de Moça Só
Grupo Kdência
10 de fevereiro
DJ Zuc
Uzotoz (Hip-hop)
Ato Libertário
Dekolla
11 de fevereiro
DJ Kaska
The Baggios
Grupo 5 Elementos
Out Mask
Sambacana

Entra projeto e sai projeto e não vemos uma vírgula de mudança na lógica das políticas públicas destinadas à cultura na capital sergipana (situação que resvala no estado também). Parabenizo o seu paciente trabalho – sempre com novos elementos e uma dose a mais de angústia ao retratar os fatos por aqui -, ao mesmo tempo que repudio a organização do Projeto Verão. As diferenças começam ao classificar umas apresentações como shows e outras como atividades multiculturais. Embora eu até prefira a segunda nomenclatura, a distinção não é senão por questões financeiras e pela lamentável mania de diminuir a construção de cultura e identidade locais.
Comentário por Babi — fevereiro 10, 2012 @ 4:58 pm