
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O diretor da Rádio Aperipê já conhece os nomes que deverão defender a bandeira de Sergipe no festival de música realizado pela Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub), mas não os revela nem sob tortura. A divulgação só ocorrerá na próxima sexta-feira, Dia da Sergipanidade, quando a programação da emissora será totalmente dedicada aos artistas locais. Isso não significa, contudo, que Léo Levi alimente algum receio em relação à exposição de suas idéias.
Em uma conversa rápida, entre um gole de coca-cola e outro, o rapaz e4xpôs suas impressões a respeito da cena local com uma franqueza corajosa, sobretudo quando levamos em conta a importância de sua posição. A conversa deveria girar em torno do Festival da Arpub. Malicioso como poucos, no entanto, torci o rumo da prosa até encontrar o porto que pretendia.
Jornal do Dia – Quando você assumiu a direção da Rádio Aperipê, o processo de aproximação com o artista sergipano já estava em andamento.
Léo Levi – Isso. Eu entrei lá por volta de 2007, na gestão de Patrick Tor4, quando fiquei responsável pela programação. Embora Patrick tenha sido responsável por essa aproximação inicial, o perfil da Rádio acabou sendo definido por mim e por Ricardo Gama, já que Patrick se dedicou mais ao exercício político inerente a suas funções. Isso facilitou muito o meu trabalho quando assumi a direção. Quando fui convidado para o cargo, agora em março, eu já sabia como as coisas caminhavam ali dentro, quem eram nossos funcionários, como cada funcionário funcionava… E esse conhecimento, num órgão público cheio de vícios, pode ser fundamental.
Jornal do Dia – Nesse período, a Aperipê acabou se transformando numa referência muito importante na cadeia produtiva da cultural local.
Léo Levi – Cara, a grande sacada foi dar espaço aos nossos músicos. Antes, a Aperipê conseguia veicular, estourando, cinco músicas por mês. Agora, veiculamos mais de quatrocentas músicas de artistas sergipanos mensalmente. Por isso a aproximação. Os artistas perceberam que teriam espaço em nossa programação. Eles começaram a enxergar a Aperipê como uma casa onde eles podiam ficar à vontade para divulgar shows, levar música, debater idéias e lançar propostas. Isso foi muito bom pra gente e, acredito, para todos os agentes da cultura sergipana.
Jornal do Dia – A partir de sua experiência profissional – tanto como diretor da rádio, quanto como produtor cultural – é possível falar em uma nova fase na música sergipana?
Léo Levi – Eu lembro de quando era garotão, no início da década de 90. Pra sair um disco era um grito. Lembro que o lançamento do primeiro disco da Snooze foi uma coisa de outro mundo. O mesmo pode ser dito do lançamento de Joésia Ramos. Hoje, com tanta tecnologia, com essa coisa toda de internet, ficou tudo mais fácil. Isso refletiu naturalmente na produção local.
Agora, um pouco mais recentemente, lá pros anos 2000, aconteceu uma movimentação bem interessante aqui na cidade, a cena estava borbulhando. Eu lembro das pessoas empolgadas. “Agora vai! Agora vai!”.
Jornal do Dia – Parece que não foi…
Léo Levi – Parecia que ia acontecer, mas deu uma brecada, infelizmente…
Jornal do Dia – Os meios de comunicação sempre foram muito negligentes, e não se assumiam como um elo dessa cadeia, né?
Léo Levi – A divulgação era muito informal, baseada em zines e listas de discussões virtuais. Mesmo a Aperipê, uma rádio pública, permanecia indiferente, era uma rádio morta. Faltava uma válvula de escape pra coisa de fato acontecer.
Jornal do Dia – Por outra lado, no entanto, parece que o artista sergipano também reclama muito e se nega a encarar a música como uma profissão. Tem muita gente que identifica o artista local como uma cara chorão.
Léo Levi – Rapaz… Eu acho que não vou responder isso, não (sorrindo).
Jornal do Dia – Pode falar, eu prometo que não conto a ninguém…
Léo Levi – Eu acho o artista sergipano muito chorão. Tem uma gurizada que encara a atividade com muita seriedade, que está dando um gás, mas a gente ainda percebe em certa parcela da classe artística um certo comodismo. Eles acham que o governo, ou a Funcaju, ou sei lá o quê, tem obrigação de bancar o trabalho preguiçoso que fazem. Eu acho que isso atrapalha o desenvolvimento da cena, na medida em que algumas bandas que trabalham de verdade acabam sofrendo, sendo apontadas como pupilo do governo, coisa e tal.
Jornal do Dia – Você está se referindo ao “caso NaurÊa”?
Léo Levi – Pois é. Tem gente que prefere ficar se lamentando ao invés de ocupar os espaços existentes. Eles criticam a Naurêa, ficam falando essas besteiras, mas podiam trabalhar para conquistar o mesmo respaldo. Mas parece que é mais fácil fazer acusações.
Concordo com quase tudo. Inclusive com as potencialmente polêmicas declarações finais. Mas acho também que tem muito artista que batalha seu espaço SIM, e não está recebendo o devido apoio do poder publico. O que eu tou achando foda (no sentido de bom – aliás, essa palavra, foda, nem deveria ter um mal sentido, né) é que eles não estão se abalando com isso, estão se mobilizando e fazendo as coisas acontecerem por conta propria, ao contrario dos que se acomodam na choradeira e ficam só reclamando da falta de apoio, que são os que, quero crer, Leo levi está se referindo. A unica grande critica que tive esse ano com relação a essa questão é que achei ridicula a escalação do palco principal do Projeto Verão ( da prefeitura ) ter sido exatamente a mesma do Verão Sergipe (do estado). Absolutamente nada contra as bandas que lá tocaram, apenas achei que poderia ter havido um revezamento para contemplar outros grupos/artistas que também batalham seu espaço, têm qualidade e merecem atenção.
Comment por Adelvan — Outubro 27, 2009 @ 9:49 pm
é por aí, ou quase por aí.
Comment por Allen — Outubro 28, 2009 @ 1:56 am
Essa aproximação da Aperipê/artista/público que ocorreu recentemente, a meu ver, é o marco de um momento oportuno no qual a cena musical sergipana pode dar uma guinada relevante. Para isso outras ações devem ser geradas, e o governo intimado pra dar o suporte adequado como lhe cabe. Agora mesmo foi aberto um canal entre a pasta de cultura e a classe musical que pode ser o segundo grande ponto desse momento. Falta mais gente por lá pra sincronizar as idéias. Chega de pires e de segregação, bora bater caminho com medidas coletivas que a coisa rende pra todos.
Comment por Deilson Pessoa — Outubro 28, 2009 @ 1:03 pm
Amorosa se retou! É como na canção: “O tempo passou na janela, e só Carolina não viu”. http://www.jornaldodiase.com.br/viz_conteudo_opiniao.asp?codigo=29102009829797895
Comment por spleencharutos — Outubro 29, 2009 @ 12:58 pm
Do que Amorosa está reclamando mesmo???
Aquela que mais viajou e fez shows por conta do estado deveria estar agora colhendo os frutos da época em que representava Sergipe mostrando seu trabalho, o que deu errado?
Na adolescencia lamentei muito o fato da banda Sulanca não ter “estourado” fazendo sucesso no pais, mesmo que no underground. Hoje adulto, lembro que a Sulanca era banda de três eventos, Carnaval/Pré-Caju, 17 de março (aniversário da cidade) e nos festejos juninos. Ou seja, só tocava quando tinha cachê certo.
São sim muito chorões esses artistas, não só os sergipanos.
Comment por Alessandro — Novembro 2, 2009 @ 11:31 pm
Esse último comentário, sobre a Sulanca, é extremamente pertinente e verdadeiro. Eu fazia parte da banda e me incomodava com o lance da gente só tocar em evento do governo, de não fazer uma produção própria, criar uma proximidade maior com o público em vários ambientes diferentes, porque o som cabia no Festival de Rock, no Encontro Cultural do interior ou na festa popular pro povão. Foi o exemplo de potencial mais mal aproveitado que já vi, e vi de perto!
Comment por Rafael Jr. — Novembro 12, 2009 @ 1:43 pm
Ah, e eu entendi muito bem do que Amorosa está reclamando, está claro! E entendo a posição dela.
Pra mim, nem 8 nem oitenta: tô com Deilson Pessoa no comentário lá em cima, temos que pensar em coletividade! chega de esmola, e tb vamos dividir esse bolo de forma mais justa, tem pouca gente mamando e muita gente ralando sozinha (e sem reclamar), como The Baggios e Daysleepers, só pra citar dois exemplos. O que o Governo tem que bancar é festival e estrutura, e não ações individuais!
Comment por Rafael Jr. — Novembro 12, 2009 @ 2:01 pm