Rian Santos
Saudade do cronista, quando a notícia não passava de desculpa esfarrapada, um artifício sem vergonha para ludibriar meu editor. Impérios caíssem, suicidas covardes implorassem ajuda do alto dos edifícios. De minha janela, o rio me dizia que a vida não consulta o relógio. Por mim, o coitado encontraria o chão.
Nem onde, nem quando, nem como, nem por quê. Nenhuma hora, nenhuma data marcada. Somente a melodia das palavras, fiapo sem força, incapaz de me atar à realidade, bordado paciente que ocupava as tardes de minha mãe.
A leitura de suas mãos perdidas em linhas coloridas era mais rica e mais bonita do que o preto e branco do jornal. O mergulho da agulha na malha macia do algodão espetando as rugas de minha avó, o perfume do cigarro que minha bisa fumava sem parar, a voz apagada de gente que eu nunca conheci, embora os traga na feição.
Nada de greves, atentados, bombas, explosões. Que se foda todo mundo. Hoje é feriado, tenho um monte de lorota pra contar.