Rian Santos
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O coração de meu amigo é um barraco na encosta. Vinte e nove anos de deslizamentos constantes o colocaram lá em cima. Não adianta o mestrado em filosofia, a leitura de Blake no original inglês. Tão logo o céu escurece, no alto, sugerindo um copo de conhaque para arrefecer a aflição, os silvos gelados do vento empurram lembrança de muita lama pelas fendas rasgadas na memória de suas paredes.
Como alguém levanta a própria casa em terreno movediço? Foi também a pergunta que me fiz um tempo. Na realidade, poucos distinguem o lugar mais adequado para se encostar. A tragédia certa não é menos angustiante do que o vadiar sem propósito de um cachorro perdido, e o alento de um abrigo é como refúgio criminoso, prédio ignorante de veleidades e conveniências. A primeira oportunidade deitada na cama da última chance. A mesma coberta, a baba escorrendo entre dois rostos no travesseiro. Somente depois vem a ciência do risco. Três dias seguidos de chuva, soterramentos e inundações.
Quando eu andava sem rumo, procurando acidentes na fortuna ordinária das esquinas, subia o morro e catava pedaços de papelão. Na feiúra descoberta das putas, encontrava o palmo de chão necessário para brincar meu latifúndio. Cavalices de macho, coices e desejos relinchantes. Nesse pasto de nojeiras celadas, eu juntava quatro tijolos para sustentar um pedaço rachado de zinco. Enquanto não houvesse alternativa viável, me ajeitaria por ali.
É certo que uma hora a força da água deita tudo abaixo. As toras de madeira dispostas contra o barranco não podem com a erosão continuada, cataclismo melífluo disfarçado em modos de mulher. Recordo o gosto do barro, café amargo que provava todos os dias, e estremeço pelo amigo na ribanceira. Por isso, pode ser apenas uma nuvem, mas ao perceber qualquer sinal de precipitação, entorno uma dose de Domecq e afago com carinho minhas paredes de alvenaria. Não é agradável a lembrança que conservo da chuva.